A opereta Ba-ta-clan fez carreira internacional: como Tschin-Tschin, foi encenada no Caltheater, em Viena, em 1860, e chegou a Londres em 1865, com o nome de Ching Chow Hi. Em 1864, em homenagem à opereta, foi inaugurado em Paris o Bataclan, que se tornou uma das principais casas de espetáculos da capital francesa. No século 20, alguns artistas icônicos do pop gravaram álbuns por lá, como Lou Reed, Jane Birkin, Zazie, Metallica, Sting e Prince. A casa serviu de modelo para o Bataclan de Ilhéus, na Bahia, que floresceu nas décadas de 1920 e 1930, e foi imortalizado na literatura de Jorge Amado. Em 2015, o estabelecimento parisiense ganhou as manchetes pelo evento terrível, o atentado cometido pelo Estado Islâmico. Após a comoção mundial, o estabelecimento se reergueu, e segue hoje com a vocação inspirada pela opereta de Offenbach: um local de celebração da música e da alegria de viver.
Se o gênero opereta teve um pai, esse foi o compositor judeu, nascido na Alemanha, porém francês em tudo, chamado Jacques Offenbach (1819-1890). Natural de Colônia, e radicado em Paris desde a adolescência, Jacó destacou-se como virtuose do violoncelo, antes que a rivalidade entre a França e Inglaterra lhe desse a chance de que a encenação de suas obras para o palco finalmente deslanchasse.
A virada foi em 1855. Londres fizera uma exposição internacional em 1851, e Paris, capital do Segundo Império de Napoleão III, não queria ficar para trás. Calcula-se que mais de cinco milhões de pessoas visitaram a Exposição Universal parisiense, entre maio e novembro de 1855. Jacó Offenbach, espertamente, alugou um pequeno teatro de madeira de 300 lugares chamado Salle Lazare, bem perto de onde os eventos ocorriam, e lá fundou seu Théâtre des Bouffes-Parisiens, capturando a imaginação do público com suas operetas. Ao longo de sua carreira, ele escreveria nada menos que 98 obras do gênero.
Seu sucesso sobreviveu ao fim da Exposição. Veio o inverno, e a acanhada Salle Lazare não podia oferecer conforto em condições climáticas mais rigorosas. Assim, a companhia buscou um teatro para o frio, de 900 lugares, localizado na Passage Choiseul. As atividades da sede de inverno dos Bouffes-Parisiens foram inauguradas em 29 de dezembro de 1855, com um espetáculo que brincava com o gosto pelo exótico, que ainda estava fresco nas mentes dos parisienses após conhecerem produtos industriais, agrícolas e artísticos de 34 países na Exposição Industrial: Ba-ta-clan. Dada a importância do elemento teatral, na opereta o libretista era uma figura ainda mais estratégica do que na ópera. Em Ba-ta-clan (em francês parafernália), Offenbach trabalhou com aquele que foi seu principal parceiro criativo: Ludovic Halévy, também judeu, e sobrinho de Fromental Halévy, compositor, dentre outras, da ópera La Juive. A quatro mãos com Henri Meilhac, foi autor do libreto da mais popular partitura de Bizet, Carmen; para Jacó Offenbach escreveria sucessos como La Belle Hélène (com Meilhac) e Orphée aux Enfers (com Hector Crémieux). Definida pelos autores como chinoiserie musicale, Ba-ta-clan joga com estereótipos da China para falar da França de seu tempo. O “chinês” que se fala na opereta é uma mera sucessão de fonemas alusivos – e a língua italiana é igualmente alvo de zombaria. Há alusões ao Boulevard dos Italianos, à Maison Dorée - restaurante que ficava nesta avenida -, ao baile da Ópera, às polcas que se dançavam ao ar livre no Jardim Mabille. Não faltam piadas musicais, culminando com a sátira à grandiosidade das óperas de Giacomo Meyerbeer – também judeu, cuja música de Os Huguenotes chega a ser citada – e brincadeiras internas, como alusões a La Juive e à opereta Les Deux Aveugles, sucesso de Offenbach em julho do mesmo ano, na Salle Lacaze. Depois de todos esses sucessos, Jacó queria provar a todos que era um compositor importante. Os contos de Hoffmann foi sua derradeira tentativa de compor uma ópera séria. Mas Jacques Offenbach morreu sem terminar esta obra, que sobreviveu ao seu autor. Ironias da história.
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