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Terça-feira, 21 de Julho de 2026
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Espionagem e amor na Palestina

Redação
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Eu estava com onze anos, meu irmão se preparava para os discursos que faria, no fim de 1946, na formatura ginasial do Colégio Hebreu Brasileiro. Moysés seria o orador da turma e os discursos seriam em ídiche, hebraico e português, algo inédito na história do colégio. Certas noites, Moysés se reunia com Fanjgelerent em sua casa, na Aldeia Campista, para uma revisão geral do ídiche e do hebraico. Eu acompanhava meu irmão nessas visitas; e era exatamente entre uma lição e outra que o professor aproveitava para me doutrinar. Ao lado do inesquecível Dadinho*, filho do mestre, aprendi muita coisa nessa aventura pela melhor tradição judaica. Por exemplo, uma história digna do melhor James Bond.
Em 25 de novembro de 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, o engenheiro agrônomo, cientista e fundador do movimento subterrâneo Nili, Aaron Aaronsohn, estava a bordo do navio britânico Karmala, navegando de Londres para o Egito. Como líder daquele grupo, seu objetivo era transmitir informações sigilosas para os comandantes militares britânicos que se encontravam no Egito. Naquele período, os turcos otomanos ainda dominavam a Palestina. Durante a viagem, Aaronsohn conta em seu diário que se interessou também por outros assuntos. “Eu ando muito. Meu pedômetro registrou 32 quilômetros ontem. Hoje eu andei 17 antes do almoço”, conta em um dos relatos. Aaron Aaronsohn, que morreu há um século, foi uma figura à frente de seu tempo. Ajudou a introduzir muitas tecnologias ao mandato britânico da Palestina na década de 1920, sendo um dos primeiros importadores de equipamentos agrícolas e bombas mecânicas. Ele foi a primeira pessoa a ter um carro na Terra Santa. Aaronsohn ainda montou uma moderna planta para produzir petróleo e uma rede de estações Ele imigrou da Bessarábia para a Palestina quando tinha seis anos. Aos 18, foi enviado para estudar agricultura em Grignon, na França. Em Paris, ele se apaixonou por uma nova invenção: a bicicleta; comprou duas para presentear suas irmãs, Sarah e Rivka.
Graças a uma reportagem do Ha’aretz, podemos ver uma foto das duas irmãs ao lado de suas bicicletas no quintal da família, em Zichron Yaakov, ao pé do Carmel.
Enquanto trabalhou para o exército britânico na Primeira Guerra Mundial, Aaronsohn tinha na bicicleta seu principal meio de transporte. Depois de retornar de seus estudos na França, empregou-se como diretor agrícola dos empreendimentos do Barão Rothschild em Metula, no norte de Israel. Rapidamente, no entanto, entrou em conflito com os funcionários do barão. Então, aos 24 anos, deixou a empresa por conta própria, desempenhando um papel fundamental na modernização da terra. Ele também registrou em seu diário preocupações com submarinos e minas alemãs. “Seu empreendedorismo e contribuições para a modernização de Israel na economia, na agricultura em particular, foram imensas”, diz o Professor Ran Aharonson, pesquisador do Departamento de Geografia da Universidade Hebraica, que escreveu vários artigos sobre seu tio-avô. NILI foi uma rede de espionagem judaica que ajudou o Reino Unido em sua luta contra o Império Otomano na Palestina entre 1915 e 1917, durante a Primeira Guerra Mundial. NILI é um acrônimo que significa a frase hebraica
“Netzah Yisrael Lo Yeshaker”, que se traduz como “o Eterno de Israel não mentirá”. Durante o genocídio armênio,o NILI se opôs à liderança do pequeno yishuv na época, e tentou intervir em nome dos armênios. A escolha de apoiar os britânicos contra o poder turco acabou sendo provada correta pela história. Essa postura, porém, era contrária à visão majoritária de seus companheiros dos kibutzim, que temiam perseguição feroz por parte dos turcos. Esses temores quase se materializaram quando a rede de espionagem da Nili foi descoberta, e os judeus da Palestina escaparam do trágico destino dos armênios apenas devido à intervenção do Vaticano, do governo alemão e do general Erich von Falkenhayn, comandante das tropas alemãs na Palestina. Em parceria com um membro da comunidade alemã, Abraham Dick, Aaron criou um negócio voltado para importação e venda de máquinas e produtos agrícolas. Na exposição agrícola mundial em Paris, que visitou para se manter atualizado sobre as novas tecnologias, viu ceifadeiras, tratores e colheitadeiras americanas. Logo passou a importar essas e outras máquinas. De acordo com Ran Aaronsohn, seu tio-avô e o sócio alemão empregavam métodos modernos de marketing, como uma rede de agentes, concedendo crédito e importando máquinas que haviam sido desmontadas e foram remontadas na propriedade do comprador.
Nesse período, na Palestina, havia poucas fazendas grandes o suficiente para as ceifadeiras americanas, o que fez Aaronsohn fornecer serviços de colheita também para fazendas de médio porte, principalmente para proprietários de terras árabes. Em uma carta para amigos, que hoje pode ser lida no Museu de Zichron Yaakov, Aaronsohn escreveu que mesmo algumas das melhores pessoas do ramo “nem sabem sobre a existência de algumas dessas máquinas, que poderiam revolucionar a agricultura neste país”. Na carta, ele calculou meticulosamente os lucros que esperava obter com a importação desses equipamentos. “Um lucro líquido de pelo menos 20 francos por dia por máquina, totalizando 3.000 francos de renda garantida de cinco máquinas”, escreveu. Em seus cálculos, ele aparentemente não levou em conta as avarias, a escassez de peças de reposição e o (DES) conhecimento da terra. Em um caso, os agricultores de Yavne, no norte, reclamaram de falhas nos novos ceifadores; parece que aí ele sofreu perdas. Aaron logo estabeleceu uma nova empresa, desta vez em parceria com o marroquino David Haim. “O Haim & Aaronsohn Co., Jaffa”, dizia o jornal do dia. “Máquinas para trabalhar a terra e usos industriais práticos, e licenciada para vender motores de querosene.” A empresa vendia uma variedade de máquinas e produtos agrícolas: bombas operadas a gasolina, uma centrífuga para separar creme e fazer manteiga, fertilizantes e espécies importadas de vinhas e sementes. Ran Aharonson conta sobre as diversas as iniciativas em que Aaronsohn esteve envolvido. Criou uma empresa -considerada a primeira a operar uma prensa de petróleo mecanizada. Tentou montar uma prensa de vinho modernizada. Experimentou o cultivo de laranjas sem irrigação, e traçou planos para criar uma indústria açucareira e criar bichos-da-seda. Queria promover o transporte público entre Haifa e Jerusalém, e extrair minerais do Mar Morto. Em 1912 comprou e importou um Ford Model T, tornando-se o primeiro proprietário de um carro particular na Palestina. “Depois de sua experiência nas estradas da Palestina você acredita que é possível ir de carro para Atlit, Haifa e outros lugares? Estou fazendo isso agora”, escreveu Julius Rosenwald, um dos doadores americanos de uma estação agrícola experimental em Atlit que Aaronsohn estabeleceu e gerenciou. “O pequeno Ford é um carro pequeno e corajoso que me poupa muito tempo, além de me dar muito prazer.” A carta está no Museu Aaronsohn House em Zichron Yaakov. Aaronsohn também foi pioneiro no estudo da ecologia do país. Ele alertou contra o uso excessivo de pinheiros na floresta da terra e sugeriu proteger florestas naturais, alertando sobre a extinção de espécies locais. Michael Blecher, ecologista da reserva natural Ein Gedi, acaba de publicar um estudo em língua hebraica sobre os estudos de ecologia de Aaronsohn. Ele observa que, apesar da grande sensibilidade do pioneiro, ele não tinha escrúpulos em importar a palmeira Washingtonia, que acabou por ser uma das espécies invasoras mais prejudiciais de Israel. Em 1915, Aaronsohn foi chamado pelo governador turco da Palestina e da Síria para liderar uma equipe para combater uma invasão de gafanhotos no Oriente Médio. Seu diário está cheio de descrições de seus métodos para combater a praga, incluindo invenções para espalhar pesticidas. À medida que a Primeira Guerra Mundial progredia, Aaronsohn era cada vez mais ativo na coleta de informações para o Nili. Ele começou a negligenciar seus esforços comerciais e tecnológicos. As autoridades turcas, que reconheceram suas habilidades, procuraram recrutá-lo, e Aaronsohn contou-lhes sobre uma maneira de fazer óleo de motor a partir do óleo vegetal. Por isso ele recebeu uma permissão para se mover livremente ao redor do Império Otomano. Usando esta permissão ele conseguiu viajar para a Dinamarca e de lá, em um barco americano, para cruzar as linhas para o lado britânico. Após a conquista britânica da Palestina, ele permaneceu como conselheiro sênior do exército britânico, e em 15 de maio de 1919, ele voou em um avião militar de dois assentos sobre o Canal da Mancha de Londres para Paris. O avião nunca chegou ao seu destino e presume-se que caiu. “Em sua morte, também há algo relacionado à tecnologia – isso foi apenas 10 anos após a primeira travessia do canal de avião”, diz Ran Aaronsohn. “Ele sentou-se lá com um capacete, exposto ao vento. Era parte do seu amor pela inovação.”
Cartas e documentos estão à disposição de quem visita o Museu dedicado a ele. É uma história pessoal incrível da família Aharonson e a rede de espionagem que foi criada em Israel para combater os otomanos.
No Museu, um vídeo conta a história com paixão. Amor, guerra, traição, laços familiares, encontros e desencontros em uma história fantástica, Palestina em 1916. Zichron Ya’akov é um lugar maravilhoso, uma pitoresca moshavá, uma comunidade cooperativa, construída na ponta da cordilheira do Carmelo, a primeira moshavá a ser construída em Israel. hoje é um dos principais locais de turismo e férias na região. Aaron Aaronsohn nasceu em Bacau, na Bessarábia. Como engenheiro agrônomo, ele fez extensas explorações em Eretz Israel e países vizinhos e em 1906 descobriu espécimes de trigo híbrido selvagem(triticum dicocoides) em Rosh Pinah, uma descoberta que o tornou famoso entre botânicos em todo o mundo. O triticum dicocoides é considerado por muitos como relacionado ao triticum dicoccum, o trigo híbrido Emer que foi cultivado primeiro no Oriente Médio e é a base da agricultura. Aaronsohn soube que a organização NILI havia sido descoberta pelas autoridades otomanas. Ele também foi informado da trágica morte de sua irmã Sarah que cometeu suicídio em vez de revelar os nomes de outros membros da NIL. Na primavera de 1918, Aaronsohn retornou à Palestina como membro da Comissão Sionista. Ele foi membro da delegação judaica na Conferência de Paz de Paris de 1919. Ele foi o fundador e líder do Nili, um grupo judeu de espionagem que trabalhou para o Reino Unido durante a Primeira Guerra Mundial. Graças às informações fornecidas pelo Nili ao exército britânico, o general Edmund Allenby conduziu um ataque de surpresa à Beersheva, contornando as poderosas defesas turcas de Gaza. NILI ajudou o Reino Unido em sua luta contra o Império Otomano na Palestina entre 1915 e 1917, durante a Primeira Guerra Mundial. NILI é um acrônimo que significa a frase hebraica “Netzah Yisrael Lo Yeshaker”, que se traduz como “o Eterno de Israel não mentirá”. E nessa história dramática e cheia de grandes alternativas, o Museu nos mostra o maço de cartas que ele enviava sempre à sua amada Sonia, esposa de um grande companheiro seu. Tudo sugere que foi amor platônico, eu prefiro achar que em algum momento eles tenham chegado a vias de fato. Não é possível que um cara tão esperto e dinâmico, e muito apaixonado, vivesse seu amor apenas nas cartas. Mas isso fica para os pesquisadores, há muita gente estudando e procurando detalhes da carreira dele, e dela. De resto, é esperar que o Spielberg se inspire num belo filme.

· Dadinho teve paralisia infantil, mas ainda assim jogava futebol no Hebreu, era um bom goleiro. Chaver do kibutz Bror Chail, serviu a Tzavá, foi comandante da Força Aérea, várias vezes condccorado.

 

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HENRIQUE VELTMAN é
jornalista. - hbveltman@gmail.com

 

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