Anarquistas, Graças a Deus é um livro memorialístico da escritora paulistana Zélia Gattai, esposa e companheira do Jorge Amado. Publicado em 1979, faz um importante retrato da imigração italiana no Brasil, da formação do país e da militância política em São Paulo no início do século 20. Claro, é quase uma declaração de amor ao movimento anarquista, que foi extremamente importante nas primeiras décadas do século passado e de seu declínio acentuado após a guerra civil espanhola (1936). Eu confesso a vocês que, mesmo quando eu militava no partidão, não conseguia esconder minhas simpatias pelos anarquistas, eu achava ótima, por exemplo, a capa do livro do Anibal Vaz de Melo, “Cristo, o maior dos anarquistas”, onde a figura de Jesus aparece segurando uma bomba caseira pronta para ser lançada...
Essa minha simpatia, esse meu perigoso desvio ideológico, se traduz, ainda hoje, pela figura da judia Emma Goldman. Ela foi uma anarquista conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século passado.
Nascida em Kovno, no Império Russo (atual Kaunas, na Lituânia), em 1869, Emma emigrou para a América em 1885 e viveu em Nova Iorque, onde conheceu e passou a fazer parte do movimento anarquista. Atraída pelo anarquismo após a Revolta de Haymarket (o enforcamento de quatro operários de Chicago), Emma Goldman tornou-se uma renomada ensaísta da filosofia anarquista, escrevendo artigos anticapitalistas bem como sobre a emancipação da mulher, problemas sociais e a luta sindical. Ela e o escritor anarquista, o também judeu Alexander Berkman, seu amante e companheiro por toda vida, planejaram assassinar Henry Clay Frick como uma ação de propaganda pelo ato. Zolen brenen de guivirem!*. Frick foi um industrial norte-americano e patrono das artes, conhecido na época como o “homem mais odiado da América”. Embora Frick tenha sobrevivido ao atentado, Berkman foi sentenciado a vinte e dois anos na cadeia. Emma foi presa várias vezes nos anos que se seguiram, por “incentivar motins” e ilegalmente distribuir informações sobre contracepção. Em 1906, Goldman fundou o jornal anarquista Mother Earth (Mãe Terra).
Em 1917, Goldman e Berkman foram sentenciados a dois anos na cadeia por conspirarem para “induzir pessoas a não se alistarem” no serviço militar obrigatório, que havia sido recentemente instituído nos Estados Unidos. Depois de serem soltos da prisão, foram novamente presos - junto com centenas de outros progressistas - sendo deportados para a Rússia. Inicialmente simpatizante da Revolução Bolchevique, Emma até aparece numa cena do filme Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo”, baseado no livro do jornalista comunista John Reed sobre os frenéticos dias vividos na Rússia em 1917, desde o fim do czarismo, passando pelo governo provisório de Kerenski, até ao triunfo do golpe bolchevique. De simpatizante ela rapidamente expressou sua oposição ao uso de violência dos sovietes e à repressão das vozes independentes. Em 1923, ela escreveu sobre suas experiências entre os bolcheviques, dando forma ao livro Minha Desilusão na Rússia. Abandonando a Rússia, Emma viveu um período entre Inglaterra, Canadá e França, quando escreveu uma autobiografia chamada Vivendo Minha Vida. Com o início da Guerra Civil Espanhola, em 1936, Emma, já com mais de 60 anos, viajou até Barcelona para apoiar a Revolução Anarquista e o POUM (Partido Operário de Unificação Marxista).
Durante sua vida, Emma Goldman foi celebrada por seus admiradores como uma livre pensadora e “mulher rebelde”, e achincalhada pelos adversários, como sendo defensora de assassinatos políticos e revoluções violentas. Seus escritos e conferências abrangeram uma variedade de assuntos, incluindo o sistema prisional, ateísmo, liberdade de expressão, militarismo, capitalismo, casamento e emancipação das mulheres. Também desenvolveu novas formas de incorporar políticas de gênero no anarquismo. Emma Goldman faleceu na cidade de Toronto, no Canadá em 14 de Maio de 1940. Nos anos 1970 a vida e a obra de Emma Goldman voltaram a ser reconhecidas na medida em que acadêmicos, feministas e anarquistas passaram a se interessar por ela. Este interesse implicou uma nova onda de divulgação de seu legado, com publicações de seus artigos e livros sendo relançados, e citações e imagens suas sendo estampadas em camisetas e cartazes. É creditada a ela diversos ditos marcantes do anarquismo entre estes a famosa frase que diz - “Se não posso dançar, não é minha revolução” - capaz de definir de maneira simples a ideia anarquista de liberdade.
· Em iídiche, que sejam queimados os poderosos.
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