Henrique Veltman
O Shemini Atseret é uma festa celebrada durante dois dias - 22 e 23 do mês hebraico de Tishrei. Depois de completar os sete dias de Sucot, o oitavo dia significa que o judeu quer permanecer mais um dia na Sucá, na presença Divina.
O segundo dia de Shemini Atseret é conhecido como Simchat Torá – (a festa da) Alegria da Torá. Em Simchat Torá, concluímos e recomeçamos o ciclo anual de leitura da Torá. Esse ano após o Izkor no dia 28.
É muito estranho que eu, um judeu secular, absolutamente ateu e anticlerical, fique aqui e ali explicando essas coisas religiosas e tradicionais ao meu público leitor, sobretudo minhas netas e, mais adiante, meus bisnetos, meus sobrinhos, meus hebreus e meus cunhados. Enfim, é o que me cabe nesse latifúndio. Lá atrás, no encerramento tardio dos meus estudos universitários, meu paper era exatamente uma visão marxista das religiões.
Mas encontro no Simchat Torá alguns aspectos muito interessantes. Primeiro, porque trata-se de uma festa muito alegre – uma das datas mais felizes do calendário na qual cantamos e dançamos com os rolos da Torá, com a Lei de Moisés. Imaginem vocês, por exemplo, que nós, cidadãos brasileiros, cantaríamos e dançaríamos com o livreto da Constituição Cidadã de 1988 e com os códigos civis à mão.
Os rabinos hassídicos ensinam que, em Simchat Torá, “alegramo-nos com a Torá e a Torá se alegra conosco; a Torá quer dançar, e, portanto, tornamo-nos os pés dançantes da Torá’’. Retiramos todos os rolos da Torá da Arca Sagrada e dançamos com eles ao redor da Bimá – a plataforma elevada da sinagoga onde é lida a Torá. As danças com os Sifrei Torá ao redor da Bimá são chamadas de Hakafot, que significa “andar em círculos”. Em Simchat Torá, é costume fazer sete Hakafot ao redor da Bimá.
Aí chego a um fato histórico muito importante: algumas comunidades até dançam com os rolos da Torá nas ruas. Em algumas sinagogas, é costume que, nessa festa, todos os homens presentes recebam uma Aliá – isto é, sejam chamados à Torá. Nesse dia, é comum a sinagoga se encher de jovens e crianças, todos desejosos de celebrar e dançar com a Torá.
Simchat Torá é uma festa judaica singular. Não é mencionada na Torá nem no Talmud. Não é uma festa rabínica, não foi instituída por autoridades religiosas e nem sequer comemora qualquer libertação ou vitória histórica do Povo Judeu. Qual é, então, a origem de Simchat Torá?
O Rabino Jonathan Sacks, tão citado por nós, da Diaspora, escreveu que Simchat Torá nasceu na Babilônia, provavelmente no final do período dos Amoraim – os rabinos do Talmud, no quinto ou sexto século da Era Comum. O costume babilônico – que se tornou universal – era dividir a Torá em 54 porções semanais para serem lidas no decorrer de um ano. Em Israel, a leitura de toda a Torá era concluída a cada três anos e meio. Na Babilônia, no segundo dia de Shemini Atseret lia-se a última porção da Torá.
Há um costume judaico muito antigo de se fazer uma celebração para comemorar um siyum (o término) de um tratado talmúdico ou de uma ordem da Mishná. Esse costume evoluiu e a tradição de celebrar um siyum passou a incluir o término da leitura dos Cinco Livros da Torá, o Pentateuco. Considerava-se uma grande honra ser chamado à Torá para a leitura da sua última porção. A celebração do término da leitura da Torá, que ocorria no segundo dia de Shemini Atseret, ficou conhecida como Simchat Torá.
Muitos judeus da Diáspora que dançam com grande entusiasmo em Simchat Torá nunca sequer estudaram uma palavra da Torá. Esse fenômeno evidencia o fato de que a Torá está tão gravada na alma dos judeus que, mesmo aquele que nunca a estudou, pode se alegrar muito com esse livro que, reza a tradição, Deus escreveu e deu a nosso povo. Como ensina o Zohar, a obra fundamental da Cabala, existe um vínculo triangular metafísico que une Deus, Sua Torá e o Povo Judeu. Ou seja, somos a encarnação de nosso Patriarca Jacó, estamos intrinsecamente conectados à Torá e a seu Autor, o Todo Poderoso. Como está escrito: “Moisés nos deu a Torá, a herança da congregação de Jacó” (Deuteronômio 33:4).
A Torá é o fio de prata, a fonte da vida, que liga todo judeu a seu Criador. Visto que a Torá é a herança espiritual de todo judeu, sem exceção, somos todos convocados para celebrar no dia em que terminamos sua sagrada leitura. Em Simchat Torá, celebramos o fato de que a Torá é uma herança que pertence igualmente a todos os Filhos de Israel.
Simchat Torá nasceu quando os judeus haviam perdido tudo, exceto a Torá e a capacidade de se alegrar com ela. No século 20, Simchat Torá passou a simbolizar a afirmação pública da identidade judaica. Os judeus da União Soviética, em particular, celebravam a festa em massa nas ruas de Moscou. Em outubro de 1973, milhares de judeus, diante da secular Golda Meir, então embaixadora de Israel na União Soviética, dançaram com os rolos da Torá diante da Sinagoga de Moscou tantos anos após a Revolução Bolchevique...
Uma boa parte do que escrevi nesse texto aprendi com o rabino Adin Steinsaltz Z’L, sobretudo na sua tradução do Talmud, presente inesquecível do meu Igor.
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