Carlos foi cinegrafista na extinta TV Tupi nas décadas de 50 e 60. Fã dos desfiles de Carnaval na Avenida Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, e Vale do Anhangabaú e Avenida São João nos anos de 1960 e 1970. Com uma velha câmera portátil registrou muitas escolas apresentando seus sambas enredos.
“Vô, essa escola que aparece neste filme veio da África para se apresentar aqui no Brasil”? questionou seu neto Rogério, adolescente de 17 anos na sala de casa de Carlos, refúgio de ricas conversas culturais, a respeito de vários temas.
“Não. Aqui é a escola de samba carioca Em Cima da Hora, em 1969, contando a temática da escravidão do negro e a rebelião contra essa vergonhosa situação. O nome do samba era lindo: “Ouro Escravo”, autoria de Normi Freitas e Jair dos Santos”, algo fascinante.
Exploração
“Como assim vô”, questionou Rogério. “Veja um trecho da letra: “Do homem africano ressaltamos o valor/Nestas páginas marcantes/Que o “Em Cima do Hora” desfolhou/Que apresentamos neste carnaval/O ouro escravo/No tempo do Brasil colonial/Brilha nos anais desta história/Que apresentamos neste carnaval/Solto no campo, na serra ou junto ao mar/Ao índio bronzeado não puderam escravizar/Enquanto o negro era martirizado/ Na escavação do ouro trabalhando sem cessar/A toda crueldade resistia/ Oh! quanto o negro sofria/A exploração era geral...”.
“Vô, mais parece um samba de protesto”, destacou Rogério. “Nesta letra, que era comprida, os compositores falavam da história econômica do Brasil, destacando que o negro contribuiu para a geração da maior parte de nossas riquezas”, explicou Carlos.
“Meu neto, nas décadas de 50, 60 e 70, tínhamos grandes compositores, pessoas talentosas, como Zé Keti, Mano Décio da Viola, Casquinha, Batatinha, Carlos Elias, Davi do Pandeiro, Silas de Oliveira no Rio de Janeiro. Aqui em São Paulo o time era bom, com Toniquinho Batuqueiro, Geraldo Filme, Talismã, Ideval, Zelão, Zé Di, Osvaldinho da Cuíca”, enumerou.
Destaques
“Vô, hoje o tempo mudou. Ninguém gosta de ouvir samba cheio de história. O negócio é falar de coisas que “bombam” na internet, com milhões de likes. Samba assim é coisa de velho, vejam os instrumentos sem graça da bateria”, disse apontando para o filme que assistiam na sala.
“Pois é meu neto, naquela época as baquetas dos tamborins eram de madeiras, não de varetas de PVC! O surdo era feito de barricas de madeiras. O couro era de animal, bem esticado. Não existiam carros alegóricos gigantescos, os destaques eram pessoas simples, porém com muito sangue de carnaval nas veias”, disse.
“Vô, é melhor ver uma atriz da Globo de destaque, do que a nossa empregada Lili, fantasiada de rainha. Ela não é loira, nem tem olhos azuis. Também é gordinha. Não atrai a atenção de ninguém”, criticou Rogério.
Filosofia
“Mas a Lili não precisou ir à academia para aprender a sambar! O Pato N´Água, um dos maiores mestres de bateria de São Paulo, do então cordão Vai-Vai, na década de 50, que depois virou escola de samba em 1972, não precisou tomar aulas de percussã0. Assim como Talismã, da Camisa Verde, não precisou estudar Filosofia para escrever lindos sambas enredos”, destacou.
“Vô, eu amo o senhor. Mas deixa de lado o saudocismo. Estamos no começo do século 21. Era da modernidade. Escola de samba cheia de negros em todas as alas, até mesmo na diretoria e presidência é coisa do passado. Precisamos é de gente bonita, para atrair público e audiência. Ninguém gosta de ver gente feia”, afirmou Rogério.
De repente o quarto de Carlos se encheu de gente. Todos preocupados com o barulho. Ele batia o celular no criado mudo em ritmo de batucada. O neto Rogério, a empregada Lili, os dois filhos e vários membros da família o acordaram da soneca que ele tirava após o almoço de domingo. Carlos estava sonhando com a época de ouro, quando os desfiles de carnaval ainda não tinham virado refém do marketing e os negros e pobres eram os grandes artistas, desta festa, que deixou de ser popular...
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