São Paulo de Fato - As principais notícias do Brasil e do Mundo

Quarta-feira, 12 de Agosto de 2026
King Pizzaria & Choperia
King Pizzaria & Choperia

Crônica

Lembrança da época em que o Carnaval era festa popular

""..naquela época as baquetas dos tamborins eram de madeiras, não de varetas de PVC!.."

Redação
Por Redação
Lembrança da época em que o Carnaval era festa popular
Divulgação
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

 

Carlos foi cinegrafista na extinta TV Tupi nas décadas de 50 e 60. Fã dos desfiles de Carnaval na Avenida Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, e Vale do Anhangabaú e Avenida São João nos anos de 1960 e 1970. Com uma velha câmera portátil registrou muitas escolas apresentando seus sambas enredos.

“Vô, essa escola que aparece neste filme veio da África para se apresentar aqui no Brasil”? questionou seu neto Rogério, adolescente de 17 anos na sala de casa de Carlos, refúgio de ricas conversas culturais, a respeito de vários temas.

Leia Também:

“Não. Aqui é a escola de samba carioca Em Cima da Hora, em 1969, contando a temática da escravidão do negro e a rebelião contra essa vergonhosa situação. O nome do samba era lindo: “Ouro Escravo”, autoria de Normi Freitas e Jair dos Santos”, algo fascinante.

Exploração

“Como assim vô”, questionou Rogério. “Veja um trecho da letra: “Do homem africano ressaltamos o valor/Nestas páginas marcantes/Que o “Em Cima do Hora” desfolhou/Que apresentamos neste carnaval/O ouro escravo/No tempo do Brasil colonial/Brilha nos anais desta história/Que apresentamos neste carnaval/Solto no campo, na serra ou junto ao mar/Ao índio bronzeado não puderam escravizar/Enquanto o negro era martirizado/ Na escavação do ouro trabalhando sem cessar/A toda crueldade resistia/ Oh! quanto o negro sofria/A exploração era geral...”.

“Vô, mais parece um samba de protesto”, destacou Rogério. “Nesta letra, que era comprida, os compositores falavam da história econômica do Brasil, destacando que o negro contribuiu para a geração da maior parte de nossas riquezas”, explicou Carlos.

“Meu neto, nas décadas de 50, 60 e 70, tínhamos grandes compositores, pessoas talentosas, como Zé Keti, Mano Décio da Viola, Casquinha, Batatinha, Carlos Elias, Davi do Pandeiro, Silas de Oliveira no Rio de Janeiro. Aqui em São Paulo o time era bom, com Toniquinho Batuqueiro, Geraldo Filme, Talismã, Ideval, Zelão, Zé Di, Osvaldinho da Cuíca”, enumerou.

Destaques

“Vô, hoje o tempo mudou. Ninguém gosta de ouvir samba cheio de história. O negócio é falar de coisas que “bombam” na internet, com milhões de likes. Samba assim é coisa de velho, vejam os instrumentos sem graça da bateria”, disse apontando para o filme que assistiam na sala.

“Pois é meu neto, naquela época as baquetas dos tamborins eram de madeiras, não de varetas de PVC! O surdo era feito de barricas de madeiras. O couro era de animal, bem esticado. Não existiam carros alegóricos gigantescos, os destaques eram pessoas simples, porém com muito sangue de carnaval nas veias”, disse.

“Vô, é melhor ver uma atriz da Globo de destaque, do que a nossa empregada Lili, fantasiada de rainha. Ela não é loira, nem tem olhos azuis. Também é gordinha. Não atrai a atenção de ninguém”, criticou Rogério.

Filosofia

“Mas a Lili não precisou ir à academia para aprender a sambar! O Pato N´Água, um dos maiores mestres de bateria de São Paulo, do então cordão Vai-Vai, na década de 50, que depois virou escola de samba em 1972, não precisou tomar aulas de percussã0. Assim como Talismã, da Camisa Verde, não precisou estudar Filosofia para escrever lindos sambas enredos”, destacou.

“Vô, eu amo o senhor. Mas deixa de lado o saudocismo. Estamos no começo do século 21. Era da modernidade. Escola de samba cheia de negros em todas as alas, até mesmo na diretoria e presidência é coisa do passado. Precisamos é de gente bonita, para atrair público e audiência. Ninguém gosta de ver gente feia”, afirmou Rogério.

De repente o quarto de Carlos se encheu de gente. Todos preocupados com o barulho. Ele batia o celular no criado mudo em ritmo de batucada. O neto Rogério, a empregada Lili, os dois filhos e vários membros da família o acordaram da soneca que ele tirava após o almoço de domingo. Carlos estava sonhando com a época de ouro, quando os desfiles de carnaval ainda não tinham virado refém do marketing e os negros e pobres eram os grandes artistas, desta festa, que deixou de ser popular...

FONTE/CRÉDITOS: Aristóteles Ambrósio
Comentários:
King Pizzaria & Choperia
King Pizzaria & Choperia
King Pizzaria & Choperia
King Pizzaria & Choperia

Crie sua conta e confira as vantagens do Portal

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!