Lula já admite, em conversas com interlocutores, a possibilidade de ser derrotado por Flávio Bolsonaro nas eleições de 2026. O presidente chegou a essa conclusão diante de um cenário que mudou significativamente nas últimas semanas e que hoje coloca sua campanha diante de uma disputa muito mais apertada do que se imaginava meses atrás.
O principal problema está no crescimento. Lula não tem conseguido ampliar seu eleitorado nas pesquisas, enquanto Flávio Bolsonaro vem reduzindo a distância e, em alguns levantamentos, já aparece numericamente à frente em um eventual segundo turno. A Quaest divulgada em 14 de setembro colocou Flávio com 42% contra 40% de Lula nessa simulação. O Datafolha, divulgado três dias depois, apontou 46% para Lula e 44% para Flávio. Nos dois casos, o cenário é de empate técnico.
É justamente esse movimento que acendeu o alerta dentro do grupo político do presidente.
O governo vem adotando medidas de última hora para tentar melhorar a percepção da população. O aumento do Bolsa Família é um dos principais exemplos. O problema é o tempo. Uma medida econômica precisa ser percebida pelo eleitor para produzir algum efeito político. Não basta aumentar o benefício. É preciso que o dinheiro chegue, que a pessoa vá ao mercado, compre mais e associe essa melhora ao governo.
E o calendário eleitoral joga contra Lula.
O reajuste anunciado em setembro elevará o benefício mínimo de R$ 600 para R$ 691 a partir de 19 de outubro, poucos dias antes do segundo turno previsto para 25 de outubro. Ou seja, existe pouco tempo para que a população beneficiada perceba concretamente o impacto da medida antes de votar.
Essa demora na reação é uma das questões que mais incomodam Lula. Na avaliação dentro da campanha, algumas medidas deveriam ter sido tomadas antes. O governo acreditou que ainda havia tempo para recuperar terreno e que determinados temas políticos seriam suficientes para impedir o crescimento de Flávio Bolsonaro.
Não foram.
O cenário mostra que o eleitor não está necessariamente fazendo a mesma leitura que os estrategistas das campanhas. O 8 de Janeiro, a pandemia e os ataques políticos podem ter importância dentro da disputa, mas existe um eleitor que está muito mais preocupado com o preço da comida, o custo de vida, o emprego e o dinheiro que entra em casa.
É aí que a campanha de Lula encontra sua maior dificuldade.
A avaliação do presidente é que existe um limite para o crescimento de sua candidatura dentro do eleitorado tradicional. São os votos ideológicos do PT, os eleitores que rejeitam a família Bolsonaro e uma parcela do centro que tende à esquerda. Para vencer, Lula precisa buscar quem está fora desse grupo.
E é justamente esse eleitor que Flávio Bolsonaro tenta conquistar.
A campanha petista também tem demonstrado preocupação com a comunicação junto às mulheres. Lula entende que é necessário ampliar a ofensiva contra Flávio, explorando temas como a pandemia e o 8 de Janeiro. A avaliação dentro do núcleo da campanha é que esse trabalho começou tarde.
A tentativa de transformar a eleição em um julgamento permanente sobre Jair Bolsonaro também não produziu, até aqui, o resultado esperado.
O eleitor está olhando para 2026, não apenas para 2022 ou 2023.
Essa diferença é fundamental.
O que preocupa Lula é que a campanha chegou a uma fase em que não basta impedir Flávio Bolsonaro de crescer. É necessário recuperar espaço. E, para isso, será preciso encontrar uma estratégia capaz de alcançar um eleitor que não está necessariamente interessado em repetir a polarização dos últimos anos.
A situação é ainda mais delicada porque o segundo turno se tornou o grande ponto de preocupação da campanha. Lula aposta nos debates como uma oportunidade de confronto direto com Flávio Bolsonaro. Só que Flávio também aposta nessa etapa da eleição.
Debate não é uma eleição ganha antecipadamente. É uma disputa em que cada candidato precisa responder perguntas, enfrentar críticas e administrar momentos de pressão. Um erro pode ter repercussão imediata.
Por isso, a estratégia de Lula não pode depender exclusivamente dos debates.
Para Flávio Bolsonaro, o desafio é diferente. O momento exige manutenção do crescimento e, principalmente, a construção de uma imagem própria. A tentativa de apresentar um Flávio mais ponderado e diferente do pai pode ser fundamental para ampliar sua capacidade de diálogo com o eleitorado.
O distanciamento de determinadas posições de Jair Bolsonaro pode fazer parte dessa estratégia.
Primeiro, conquistar o eleitor. Depois, disputar o restante do espaço político.
É uma lógica que também pode ser observada na campanha de Lula. Questões mais sensíveis, como aborto e outros temas que dividem o eleitorado, tendem a ser tratados com cautela durante a campanha justamente porque podem afastar eleitores.
A eleição, neste momento, está aberta e a disputa é apertada. As pesquisas recentes mostram Lula e Flávio Bolsonaro próximos, especialmente no segundo turno.
Mas o que mais chama atenção não é apenas o número de uma pesquisa.
É a mudança de ambiente dentro da campanha de Lula.
O presidente, que durante boa parte da corrida trabalhou com a perspectiva de uma reeleição sob controle, agora já admite aos seus interlocutores a possibilidade de derrota.
E quando Lula começa a trabalhar internamente com essa possibilidade, a eleição muda de patamar
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