Em 17 de junho, o presidente Jair Bolsonaro se postou mais uma vez diante da câmera pela qual conversa com seus seguidores, na live de toda quinta-feira. Acossado por denúncias contra seu Governo em meio ao processo de negociação para a compra da vacina Covaxin, o que tem feito derreter sua popularidade a ponto de empurrar o debate a favor do impeachment para além do campo político ―pela primeira vez o Datafolha mostrou que a maioria dos eleitores quer o fim precoce do Governo―, Bolsonaro dedicou parte de seus vocábulos religiosos naquele dia para neutralizar figuras que avalizaram a sua eleição em 2018, mas que agora trabalham indisfarçavelmente para tirar do presidente o sonho da reeleição em 2022. “Tem uma passagem bíblica que diz: ‘seja frio, ou seja, quente, não seja morno’. Essa via do centro, no meu entender, não decola”, disse o presidente, enquanto subiam pela tela emojis de palmas, bandeirinhas do Brasil e elogios ao “mito”, além de um rosário de xingamentos contra qualquer um que não esteja alinhado a pautas conservadoras da extrema-direita.
Três meses antes, também no mundo virtual, Bolsonaro já havia se levantado, com apetite eleitoral, a fim de engolir seus adversários quando reagiu à decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin de anular todas as condenações contra o ex-presidente Lula na 13ª Vara Federal de Curitiba, no âmbito da Lava Jato. Flagrantemente incomodado com a força eleitoral do petista após retomar seus direitos políticos, o presidente, também protegido pelo debate esvaziado de réplica, já dava os primeiros sinais do quanto, para ele, se faz necessário minimizar os efeitos de uma terceira via na eleição de 2022, ainda que se configure prematura qualquer aposta nesse sentido dado o cenário de instabilidade política nacional. “Não estou dizendo que vou ser candidato nem que sou o melhor do mundo, mas vamos ter uma eleição. Lula vai ser candidato. Tira eu de combate, quem seria o outro que iria disputar com Lula no segundo turno?”, disse, também numa live, já numa estratégia de arregimentar apoio popular contra um eventual processo de impedimento que passou a ser apoiado pelos antigos aliados.
Observando de camarote o derretimento da popularidade do presidente, hoje com 24% de aprovação contra 51% de eleitores que consideram a gestão ruim ou péssima, partidos de centro-direita (ou polo democrático para alguns, centro-liberal para outros), embora ainda alinhados com o Governo em pautas do Congresso, saem agora da órbita bolsonarista em busca de um palanque eleitoral para o qual Bolsonaro não é convidado. Numa lógica comum em governos de coalizão, nem sempre quem dá sustentação à administração segue fiel no plano eleitoral. Partidos com forte adesão a projetos do Governo enviados ao Legislativo, atraídos pelo repasse de recursos da União para suas bases eleitorais, têm em suas fileiras nomes que hoje trabalham arduamente para descolar sua imagem da do mandatário visando as eleições.
O esforço do centro-direita para alterar o caminho iniciado em 2018, quando embarcou no projeto bolsonarista, tem sido respaldado pela crescente insatisfação da maioria dos brasileiros em relação ao Governo. Neste domingo, pesquisa Datafolha divulgou o maior rasgo na principal bandeira do presidente: 70% dos eleitores acreditam que há corrupção na gestão Bolsonaro. Mais: 64% acham que há malfeitos no Ministério da Saúde, e para 64% o presidente sabia o que estava acontecendo na pasta. A tendência, segundos analistas, é a de que haja uma reavaliação dos partidos de centro-direita sobre como se posicionar no Congresso já a partir desta semana.
Individualmente, no entanto, o vento já vinha empurrando antigos aliados do presidente para o outro lado da arquibancada. Com um portfólio de rigor fiscal na administração pública, somado a uma emergente pauta identitária desde que assumiu sua orientação sexual, dias atrás, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), é um dos que procura afastar o cálice bolsonarista. “O ideal é que ele possa ser tirado pelas urnas. Não podemos banalizar o instrumento do impeachment, mas também não se pode banalizar um governo. E Bolsonaro não está à altura da democracia”, disparou Leite ao EL PAÍS. O governador declarou voto em Bolsonaro na disputa contra o petista Fernando Haddad, em 2018, e hoje se coloca com status de presidenciável do PSDB, partido que justamente na última eleição afiançou uma dobradinha entre o tucano João Doria e Bolsonaro.
No primeiro ano do governo bolsonarista, os tucanos aderiram a 83% dos projetos do presidente que chegaram ao Congresso. De lá para cá, mesmo rompida a dobradinha BolsoDória, o partido se manteve na base de sustentação. Não há hoje qualquer resquício da alegria desmedida que havia entre o governador paulista e o presidente, ambos agora numa relação bélica que tomou caminhos incontornáveis principalmente no mundo virtual. Doria já chamou Bolsonaro de “louco” e “genocida”, que revidou classificando o tucano de “vagabundo” e “hipócrita”. Assim como Eduardo Leite, o governador paulista também marca posição no campo anti-Bolsonaro. “Eu errei, assumo o erro, mas não erro duas vezes. Em Bolsonaro, nunca mais”, diz João Doria.
O governador de São Paulo articula para chegar às prévias do partido, em novembro, como um nome de consenso para a eleição presidencial, tal qual seu colega gaúcho. A despeito do inimigo em comum, ambos travam disputa interna, acirrada na última sexta-feira quando o Datafolha apontou Leite com 3% das intenções de voto num cenário sem Doria, este com 5%, em quarto lugar, atrás de Lula, Bolsonaro e Ciro Gomes. Segundo um tucano de vasta plumagem, paralelo ao perfil administrativo, mais que nunca o poder conciliatório vai pesar na escolha do partido.
Não só o PSDB tenta arrumar a casa ao mesmo tempo em que Bolsonaro vira alvo de presidenciáveis que deram um cavalo de pau na sua relação pessoal com o presidente. No PSD, comandado pelo ex-ministro Gilberto Kassab, as articulações demandam uma costura em linha fina depois de o partido ter declarado neutralidade na eleição em segundo turno de 2018, ao mesmo tempo em que o próprio Kassab admitiu na época que a maioria dos diretórios apoiariam Bolsonaro. Hoje, o líder do PSD é mais categórico em suas previsões sobre o futuro do representante da extrema-direita. “O Bolsonaro não estará no segundo turno”, disse ele ao EL PAÍS. Conhecido por suas habilidades de bastidor, Kassab articula a filiação de um nome que tem ganhado proeminência no debate eleitoral. “Fizemos um convite para o Rodrigo Pacheco (presidente do Senado, do DEM) se filiar ao nosso partido e ser nosso candidato em 2022 e há uma grande chance”, disse ao EL PAÍS o ex-ministro, reforçando a tese de que se torna cada vez mais difícil a construção de uma candidatura paralela à de Lula e Bolsonaro. Só para constar, o presidente do DEM, ACM Neto, tem uma conversa nesta semana com Eduardo Leite: “A conversa com ele vem no interesse pela construção de uma convergência”, diz o tucano.
Numa corrida para tentar configurar um projeto de cacife eleitoral, ACM Neto se encontrou semana passada com Luiz Henrique Mandetta (sem partido), ex-ministro da Saúde de expressiva popularidade no início da pandemia, ainda quando era afagado pelo presidente. Ao deixar o encontro, Mandetta atacou Lula e seu ex-chefe. Com a devida cautela, o ex-prefeito de Salvador tem evitado um diagnóstico definitivo sobre a construção de uma nova força política. Mandetta, assim como o ex-juiz Sergio Moro, outro nome que ronda o imaginário do eleitor, ingressaram com pompas no Governo Bolsonaro e foram defenestrados na primeira colisão.
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