Corria a década de 1930, grande parte do sertão do Norte e Nordeste ainda estava sob domínio dos coronéis, que eram proprietários de grandes glebas de terras. Ali, a lei era feita por eles. Decidiam quem continuaria vivo ou desaparecia da face da Terra.
No Interior de Pernambuco, na pequena Orobó, um negro de quase 2 metros de altura, muito forte (derrubava um boi, usando apenas sua mão direita), colocava respeito e medo em quem saísse fora da linha. Era conhecido como “Zoio de Cão”, por causa da vermelhidão dos seus olhos.
Seu hobby favorito era castrar o sujeito que largasse alguma moça grávida e tentava fugir do casamento. Usava seu facão, que pesava 10 quilos, para cortar os “bagos” do infeliz, além de obrigá-lo a comer uma farofa feita de sua própria carne.
“Não nasceu homem para me botar medo”, gritava na praça da cidade, batendo no peito. Por causa do medo que incutia no povo; gostava de estuprar meninas ainda virgens, além de tomar o sangue que saia da vagina delas naquele ato de violência, misturado com cachaça.
Do outro lado da cidade, afastado do centro; o tímido e medroso Gilfrânio vivia num pequeno sítio onde plantava frutas, verduras e legumes. Viúvo, era pai de três adolescentes e da jovem Mariana; menina linda, cabelos negros iguais de índia, olhos cor de mel e morena jambo.
“Zoio de Cão” detestava Gilfrânio. “Homem para mim precisa ser macho. Botar para ferver. Só corno para viver quieto e falar baixo”, xingava ele, quando alguém ousava comentar a respeito de Gilfrânio.
Quando tinha dez anos, a rezadeira da cidade, conhecida como Vó Quitéria, lhe deu uma garrucha de 2 canos de presente. “Meu filho Gil, guarde essa garrucha. Um dia, ele vai te livrar da morte”, profetizou a benzedeira.
Trinta anos se passaram. Numa Sexta-Feira da Paixão, “Zoio de Cão” acordou nervoso; foi até a cidade e avisou a todos, que até o final do dia, os três filhos adolescentes de Gilfrânio seriam castrados, e que ele tiraria a virgindade de sua filha e beberia o sangue de sua honra com cachaça.
Como notícia ruim não anda, mas voa; logo Gilfrânio ficou sabendo que iria se tornar vítima do flagelo de Orobó. Tinha razão. Até os capangas de Lampião tinham medo de “Zoio de Cão”. A polícia fingia que ele não existia. Ninguém ousava enfrentá-lo. “Coroné Crispin”, o dono da cidade, o usava para reeleger seus filhos prefeitos de Orobó.
No dia da eleição, “Zoio de Cão” esperava na boca da urna quem fosse votar e dava o aviso: “Quem não quiser ficar capado, só votar nos homens do “Coroné Crispin”. “Do contrário, deixará de ser homem para sempre”, ameaçava;
O terrível dia chegou para Gilfrânio e sua família, quando a jovem Mariana ouviu o barulho da porteira do sítio caindo sob as patas do cavalo de “Zoio de Cão”. “Papai, a morte tá vindo a galope para cá”, avisou desesperada e tremendo de medo, o seu pai, que segurava nas mãos a garrucha que nunca havia usado.
“Gilfrânio, vou capar seus três filhos agora. E “os bagos” deles você vai fazer uma farofa para que eles comam. Tua filha vou fazer mulher agora e o sangue da honra dela irei beber na cachaça misturada com pimenta malagueta”, esbravejou, descendo do seu cavalo, com o seu temível facão na mão direita.
Ao ver “Zoio de Cão” avançando em sua direção, Gilfrânio apontou a garrucha na sua direção. “Tu não é homem para atirar em mim. Vou quebrar essa garrucha, moer o que restar dela e enfiar na tua garganta. Você é um frouxo”, gritou erguendo o facão para cumprir sua ameaça contra um dos filhos do apavorado Gilfrânio.
A garrucha guardada há 30 anos, balançava nas mãos de Gilfrânio. Nunca ele havia dado nenhum tiro com ela. Mesmo assim mirou na direção de “Zoio de Cão” e apertou o gatilho. A bala não saiu. A três metros de distância, Gilfrânio tentou alvejar “Zoio de Cão” de novo.
A bala saiu e lhe acertou a testa. Ele caiu, com a boca espumando, os olhos vermelhos iguais pimentas revirando, as mãos socando o chão. O facão caiu longe da mão direita. Gilfrânio pegou e com quatro golpes cortou o seu pescoço, e segurou nas mãos a cabeça do terror de Orobó. Nunca se pode desprezar a coragem de um homem medroso na defesa de sua família.
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