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Quarta-feira, 23 de Setembro de 2026
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Uma sinagoga, duas versões

No Bom Retiro, em 2 de janeiro de 1912, fundou-se a entidade Comunidade Israelita de São Paulo

Redação
Por Redação
Uma sinagoga, duas versões
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No final do século 19 havia, talvez, uma centena de judeus vivendo em São Paulo. Sabemos que em 1888 José Tabacow Hidal (que emigrara para  Franca) trouxe para o Brasil o seu pai, Nute Tabacow, vindo da cidade de Sucaron, hoje na República  Moldova. Outros "rapazes da Bessarábia" chegaram nessa época: Bernardo Nebel, Isaac Solitrenik, Hugo Lichtenstein e o lituano Maurício Klabin. Desde o início, eles trataram de se organizar, basicamente, para ajudar outros recém-chegados, com alimentação nos primeiros dias, lugar para dormir, providências em caso de doenças e de partos.

Os dias sagrados das Grandes Festas, Rosh Hashaná e Iom Kipur, eram momentos de reunião desses imigrantes. No começo, quando eram poucos, o quorum (minian) acontecia em uma residência. Ainda não havia uma sinagoga. Não havia rabinos entre eles. Bastava saber ler a Torá, e isso, os rapazes sabiam. Com a chegada de novos imigrantes,  tornou-se necessário encontrar  um local maior. Foi quando passaram a alugar um salão para a comemoração das Grandes Festas - o sagrado não era o lugar, mas as pessoas e o Livro. Se houvesse uma Torá, ela ficava guardada na casa de uma família e, nas Grandes Festas, era transportada para o shil improvisado.

No Bom Retiro, em 2 de janeiro de 1912, fundou-se a entidade Comunidade Israelita de São Paulo, instalada na Rua da Graça, 160. Lá se inaugurou bem mais tarde a Sinagoga Kehilat Israel, que ainda hoje existe no mesmo local, hoje sede do Museu da Imigração Judaica.
A primeira diretoria ficou assim constituída: Presidente Hidal Tabacow, Vice presidente Abrão Kauffman, Secretário Jacob Nebel,Vice-secretário Isaac Tabacow, Tesoureiro Bernardo Nebel,
Vice-tesoureiro Israel Tiker, Fiscais, Hugo Lichtenstein, Miguel Lafer e José Nadelman.

A herança

Nas duas edições do meu livro A História dos Judeus em São Paulo, eu conto uma versão, que acho muito interessante, da criação do Templo Beth El, em 1929, na Bela Vista.
Hans Herzberg, que foi secretário da Federação Israelita de São Paulo em várias gestões, me contou que, no final do século 19, faleceu em São Paulo um rico comerciante judeu, sem família. No testamento, ele legou um valioso terreno para a Comunidade Israelita de São Paulo.
Só que não existia uma entidade com esse nome...
Algum tempo se passou e, um dia, o servidor de um cartório alertou Salomão Klabin  (irmão de Mauricio) para essa herança. Klabin reuniu seus melhores amigos e decidiram criar a tal entidade, com data anterior à do testamento. Com efeito, semanas depois reivindicaram a posse do terreno, o que  foi conseguido sem maiores problemas.
O terreno ficava onde depois se ergueu a sede central dos Correios, no vale do Anhangabaú, Rua Brigadeiro Tobias. O tempo passou e um dia, já nos anos 1910, um grupo empresarial suíço mostrou interesse em construir um grande hotel em São Paulo. Os suíços concluíram que o local ideal para esse hotel seria, exatamente, o da Comunidade Israelita de São Paulo.
Depois de várias conversas, os suíços ofereceram uma boa soma à entidade, mais um terreno na Bela Vista, naquela época uma área menos nobre da cidade, mas próxima aos bairros dos judeus mais ricos, Vila Buarque e Higienópolis.
Foi nesse terreno, na Rua Martinho Prado, que finalmente, em 1929, foi inaugurado o Templo Beth El.
Ah, sim, veio a Primeira Guerra Mundial, os suíços desistiram do hotel e a área foi transferida aos Correios & Telégrafos. Hoje é o Centro Cultural dos Correios.

Já o Marcos Firer, ex-presidente da Federação Israelita de São Paulo, escreveu que “o terreno para a construção do templo foi doado por um tal Bergmann, sócio e co-fundador das Fábricas de lã “Kowarick” que deixou por testamento o terreno, onde posteriormente foi construído o Hotel Terminus (Brigadeiro Tobias) e que depois foi permutado pela área na rua Martinho Prado”.

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O tal Bergmann era Leon, sócio da Lãs Kowarick, como consta do livro “Impressões do Brazil no século XX”, editado em Londres e que talvez possa ser consultado no Arquivo Histórico de Cubatão. A conferir, portanto.

Outra versão

Segundo um trabalho de Eva Blay, Salomão Klabin chamou o arquiteto Samuel Roder para fazer o projeto de uma nova sinagoga, um grande templo.
Roder, nascido em Kiev, na Rússia, chegou ao Brasil em 1916. Trabalhou para a companhia City ao lado de um famoso arquiteto, Belpark, um fidalgo britânico.
Conta Samuel Roder que, com Salomão Klabin, foi escolher um terreno. Roder conhecia o projeto da Avenida 9 de Julho, que ainda estava na prancheta - como ele trabalhava na Companhia City, conhecia os projetos da empresa para São Paulo.
O arquiteto diz que Klabin comprou o terreno da Rua Avanhandava com o dinheiro da venda de uma outra pequena sinagoga que foi demolida.   "Não lembro bem, mas acho que essa pequena sinagoga ficava na Rua Brigadeiro Tobias", contou ele na entrevista a Eva Blay.
O projeto de Roder para a sinagoga nunca foi concluído. No subsolo  existe um salão igual ao do térreo, só que ele nunca foi concluído.
Há tempos, o artista Guershon Knispel usou esse salão como ateliê de pintura.
A pedra fundamental do templo foi colocada pelo rabino Isaías Rafallovich, da Jewish Colonization Agency, o  JCA. Segundo essa versão de Samuel Roder, Salomão Klabin comprou o terreno da Companhia City e pagou em 10 anos.
E durante muito tempo, o Templo ficou conhecido como "a sinagoga dos Lafer" (Os Lafer e os Klabin mantém laços de família. Quando a sinagoga ficou pronta, o presidente da entidade era um Lafer, daí a fama alcançada).

Os irmãos Klabin, especialmente Miguel Lafer (o pai do Horácio e Jacob) eram fundadores, além de outros, José Kaufmann, Moysés Gandelmann, os irmãos Teperman e outros, da primeira escola judaica brasileira, a “Renascença”. Os irmãos Klabin também participaram e financiaram a construção do Templo Bet-El. Um dado curioso, já lembrado pelo Marcos Firer: o terreno para a construção do templo teria sido  doado por Bergmann, sócio e co-fundador das Fábricas de lã “Kowarick” que deixou por testamento um terreno, onde posteriormente foi construido o Hotel Terminus (Brigadeiro Tobias) e que depois foi permutado pela área na rua Martinho Prado. Também Hessel Klabin, deixou em testamento um terreno para construir um hospital. As senhoras Berta e Luba Klabin, durante dezenas de anos estiveram na direção da Ofidas.

 Maluf & Museu

 Quando era governador do estado de São Paulo, Paulo Maluf quis fazer um agrado à comunidade israelita, e propôs a transformação daquela sinagoga num museu ou Centro Cultural Judaico, tudo por conta do governo paulista. Aliás, nessa proposta a sinagoga continuaria existindo, o museu se instalaria nos baixos do edifício.

A direção do Templo não quis nem ouvir detalhes e rejeitou a proposta. Uma pena.

Ainda assim, a sinagoga ficou devendo a Maluf e ao então prefeito Olavo Setubal uma esplêndida iluminação pública na esquina da Avanhandava com Martinho Prado.

Há alguns anos, foi lançada a pedra fundamental do Museu Judaico de São Paulo. E as obras seguem.

O trabalho apresentado pelo escritório Botti & Rubin Arquitetos foi o vencedor no c rso de projeto para adequação e mudança de uso do templo Beth-El, convertendo-o na sede do Museu. A proposta procura valorizar a arquitetura histórica do edifício e criar uma ampliação anexa, aproveitando o desnível entre a Martinho Prado e a Avenida 9 de Julho.
Após a construção do anexo, o museu terá três subsolos e um andar térreo. A atual sinagoga será convertida em espaço de múltiplo uso - auditório para espetáculos teatrais e concertos, área para eventos e exposições temporárias -, além de manter seu uso original para celebrações rituais no térreo e no mezanino, bem como no acesso ao coro, no pavimento superior. A área administrativa existente passará a abrigar um setor de apoio.

O Alberto  Botti e o Marc Rubin eu conheço, confio no taco deles. Mas me perdoem os dirigentes do Templo, que, por preconceito,  perderam uma excelente oportunidade há pouco mais de trinta anos.

FONTE/CRÉDITOS: Henrique Veltman é jornalista.
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