Lembro-me de ouvir a voz de Ricardo Boechat no rádio do táxi, num trânsito parado da Avenida Paulista enquanto ia pro trabalho de ônibus . Ele falava de um tal "surto depressivo agudo" que o havia levado a um colapso. Não era um desabafo de celebridade, era a confissão crua de um homem que carregava o peso do mundo nos ombros, assim como a comunidade negra. Naquele momento, pensei: quantos de nós, brasileiros, pretos e pardos não carregamos um colapso silencioso, um mal-estar que vem não de um indivíduo, mas de um alicerce social rachado?
Este texto é sobre uma dessas rachaduras. É sobre a realidade do racismo que não se limita a um xingamento, mas que mora nas piadas de salão, no vocabulário do dia a dia e, o mais doloroso, na forma como, às vezes, nós, pretos e pardos, nos enxergamos e nos relacionamos.
O Riso que Sonega a Humanidade
Há uma memória que me assombra. Na infância, via na TV um homem preto, genial, o Mussum. Ele era o astro, sim, mas a plateia ria dele, não com ele. Riam do português errado, da associação com a cachaça. Era o que hoje chamam de "racismo recreativo". Na época, era só "humor". Mas aquele riso ensinava uma lição perversa: a humanidade do preto era condicional. Só era aceita se servisse de entretenimento para a casa-grande.
Essa é a essência do racismo estrutural: ele não precisa de homens de chapéu e cavalo. Ele mora no recreio. E o pior é que, com o tempo, parte de nós internaliza esse riso. Começamos a rir de nós mesmos, a duvidar do nosso próprio valor.
A Palavra que Nos Define: Negro ou Preto?
A língua é um campo de batalha. Ela não só descreve a realidade, como a cria. Pense comigo: quando algo dá errado, você diz que "a coisa tá preta"?!. Quando alguém mancha uma reputação, ela "denegre". Até a "ovelha negra" da família é a desgarrada.
Agora, repare no contraste: o movimento que resgata o termo "preto" não é sobre cor, é sobre afirmação. É um ato de resistência linguística. É dizer: "Se vou ser definido por uma cor, que seja por uma que não venha carregada de conotações ruins. Preto é lindo, preto é potência, preto é nosso." É uma tentativa de trocar a herança de desdém por um futuro de orgulho.
A Pergunta que Não Quer Calar: E Nossa Tal "Desunião"?
Aqui, preciso ser franco, num tom de quem fala entre irmãos. Já perceberam como, às vezes, somos nossos piores críticos? Como um sucesso preto é, por vezes, recebido com mais desconfiança interna do que com comemoração coletiva? Será que a senzala nos ensinou a disputar as migalhas, e esquecemos de como assar o pão inteiro?
Não é uma crítica, é um questionamento doloroso e consteutivo. Enquanto nos distraímos com rixas internas, o sistema, esse sim, unificado em seus privilégios, segue intocado.
O Espelho que o Oriente nos Oferece
Agora, feche os olhos e imagine uma outra realidade. Imagine uma comunidade que, chegando ao Brasil há décadas, também enfrentou preconceito e exclusão. A comunidade japonesa, por exemplo. Eles não ficaram esperando a boa vontade do Estado. Eles criaram suas associações, suas cooperativas, seus bancos comunitários.
Eles entenderam que a riqueza de um é a riqueza de todos. Que a educação de uma criança é o futuro da coletividade. Eles não pediram permissão para prosperar; eles se organizaram e prosperaram. A pergunta que fica, e que não me sai da cabeça, é: o que nos impede de fazer o mesmo? Por que não construímos, com nossas mãos, as pontes que o Estado nunca nos deu?
Não Fomos Herdeiros, Mas Podemos Ser os Fundadores
Esta é a parte mais bonita da história. A escravidão nos roubou a herança material. A abolição nos jogou à própria sorte. A mensagem subliminar sempre foi: "Vocês começaram do zero. Menos que zero."
Mas e se virássamos esse jogo?
E se a nossa maior revolução for decidir, hoje, que se não nascemos herdeiros, seremos os fundadores de uma nova linhagem?
Não falo só de dinheiro. Falo da herança de autoestima que damos a um filho ao ensiná-lo a amar seu cabelo crespo. Falo da herança do conhecimento academico, ao investir em sua educação. Falo da herança da união, ao mostrar que o sucesso do seu irmão de cor quer seja preto ou pardo é o seu sucesso também.
O futuro preto e pardo do Brasil não será um presente de ninguém. Será construído por nós, nas feiras de empreendedores, nas reuniões de família que viram planejamentos de negócios, nas escolas comunitárias, no apoio mútuo.
A tarefa é grande, sim. Mas cada passo importa. Que venham os nossos herdeiros. E que eles possam olhar para trás e dizer: "Nossos pais e avós não nos deixaram fortunas e, o mais importante: Eles nos deixaram algo maior: um legado de luta, de orgulho e de união sem discriminar os outros, afinal somos superiores ao racismo."

Tarsis de Andrade
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