Camargo estava com 68 anos. Sem vícios. Nunca bebeu ou fumou, nem usou qualquer tipo de drogas durante toda a sua vida. A saúde era de ferro. Diabetes, pressão alta, osteoporose ou dor na coluna; nada disso o incomodava. Se dependesse dele, os médicos oncologistas morreriam de fome, por falta de pacientes.
Aposentado do serviço público federal, recebia um benefício bem gordo, que aliado às 12 casas alugadas na região do Ipiranga, Zona Sul de SP, garantia boa renda para desfrutar da vida ao lado do seu grande amor, Mariana. Companheira que conheceu na época de auditor fiscal da Receita Federal, no Aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro.
Mas a vida é repleta de surpresas, principalmente das más. Por volta dos 60 anos percebeu redução no ritmo do corpo. A mente enviava mensagem para andar rápido, porém as pernas insistiam em se mover lentamente. Tentava fazer algo veloz, e o corpo não reagia.
Física
Não deu importância. Gostava de escrever. Havia publicado diversos livros de culinária e outros de romances. Para transformar ideias em textos, suas mãos permaneciam ágeis. O negócio dava problema quando era relacionado com a parte física.
Para não deixar Mariana preocupada. Recusava comentar o assunto com ela. Com o passar dos anos, a sensação de lentidão aumentava. Na cozinha, ao tentar segurar um prato ou panela nas mãos, eles acabavam caindo, virando cacos, refletindo nas broncas que sua amada gostava de lhe dar no decorrer dos quase 40 anos de casamento.
Da memória de elefante, da época de juventude, Camargo começou a ter amnésia, dificuldade em pensar e até compreender o que assistia nos telejornais. Logo vieram pesadelos e vontade de dormir durante o dia, perda de olfato e fala mansa, mesmo quando pretendia dizer algo rapidamente.
Vida
Observadora, Mariana percebeu que o seu grande amor já apresentava os primeiros sinais do Mal de Parkinson. O levou ao médico e, após diversos exames, o diagnóstico se confirmou. Para Camargo foi um choque. Nunca imaginaria um final da vida deste jeito. Perdendo o domínio sobre os movimentos do seu corpo.
O receio dele era a doença esfriar o amor de Mariana para com ele. A amava muito. Não conseguia viver sem a sua companhia. Mesmo distante dos três filhos, todos morando na Europa, a esposa significava o seu porto seguro. No aniversário de 68 anos, Camargo cortou o primeiro pedaço do bolo e deu para Mariana. As mãos começaram a tremer e o Mal de Parkinson impediu que esse belo gesto fosse concretizado.....
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