Jumbão tremeu nas bases quando deitado numa maca, o médico olhou para ele e disse a seguinte frase: “este tá ruim. Vamos colocar o tubo nele. Pode fazer os preparativos”. Acostumado com a violência, entrou em pânico.
Como filme, lembrou-se da época em que caiu nas mãos do delegado carniceiro Sérgio Paranhos Fleury, na época da ditadura militar, e teve as unhas dos pés arrancadas a alicate e depois apanhou no pau de arara mais de 10 horas.
Também não saia de sua memória, quando permaneceu na geladeira, a zero grau de temperatura para entregar o cabeça de quadrilha que executava motoristas de táxi em São Miguel Paulista, Zona Leste de SP. Não sabia de nada, mas apanhou muito para falar o que desconhecia.
Perto dos 70 anos, diabético e com pressão alta, Jumbão não era bom samaritano. Nas décadas de 60 e 70 gostava de assaltar caminhão de gás, farmácias e mercadinho de periferia. Tudo na moral. Sem agredir nenhum funcionário. Apenas levava o dinheiro para torrar fumando maconha.
Alto e 150 quilos de banha, porém musculoso e de mãos fortes. Osso duro de roer aguentava tortura. Dizia que nunca havia entregado ninguém. Segurava a bronca calado. Até o famigerado Fleury perdeu a paciência com Jumbão, após 12 horas de choque elétrico no pau de arara. Mandou soltá-lo sem roupa às margens da represa de Mairiporã.
Após muitos anos de crime, vários deles consumidos na hoje extinta Casa de Detenção do Carandiru, resolveu se regenerar, deixando de lá a vida errada do crime. Tinha poucos dentes na boca. Boa parte perdidos em sessão de torturas. Apresentava várias marcas de queimaduras no corpo, usado para apagar cigarros dos algozes da polícia e confessar o nome de alguém conhecido.
De repente viu sua maca mexer em direção à UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital do Mandaqui, Zona Norte de SP. Logo os médicos o sedaram. Adormeceu. De repente via do outro lado de uma rua escura, alguém apanhando bastante. Era o delegado Fleury, todo rasgado tentando correr de figuras sinistras de roupas pretas, exalando mau cheiro. Um rio de águas límpidas dividia o espaço entre ambos....
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