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Domingo, 09 de Agosto de 2026
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Crônica

O menino que desconhecia a palavra NÃO

Ele frequentava os lugares mais cobiçados do mundo

Redação
Por Redação
O menino que desconhecia a palavra NÃO
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Querino era o filho adorado de Miriam e Jonatas. Ele demorou para entrar na vida do casal. Após diversos tratamentos, alguns deles em sofisticados laboratórios nos Estados Unidos, a tão sonhada gravidez se tornou realidade. Este fator contribuiu para o amor excessivo tanto de Miriam quanto de Jonatas.

Dinheiro era farto. Ambos vieram de famílias abastadas. Luxo e bens de consumo de primeira linha sempre estavam na vida dos três. Na infância e adolescência, Querino estudou em excelentes escolas. Top de linha. Jonatas quitava tudo adiantado.

Porém, algo incomum aconteceu nestes anos de bancos escolares: a diretoria assumia o compromisso, depois repassado aos professores, de que o garoto, em hipótese alguma poderia receber nota vermelha. Querino jamais deveria ser contrariado.

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Grife

Assim, ele chegou aos 20 anos. Os empregados da família, no ato da admissão recebiam o alerta, que se fosse desobedecido resultava em demissão por justa causa: todos os caprichos dele deveriam receber sinal verde. Querino deitava e rolava. Afinal de contas, na sua visão o mundo desconhecia a palavra NÃO.

Ele frequentava os lugares mais cobiçados do mundo. Nunca enfrentou fila em aeroporto. O carro luxuoso dos pais o levava direto ao jatinho Cessna, último modelo. Cartão de crédito bancado por Jonatas. Roupas finas, sapatos e tênis de grife. Enfim, mimos que adolescentes de sua idade, mesmo ricos, nunca iriam ver.

Os negócios da família, na área de mineração, onde detinham grande percentual de ações das empresas top do setor, rendia muito dinheiro em dividendos, além da participação em outros negócios, sempre aumentando a fortuna deles. Até artistas famosos eram contratados para apresentações particulares. O valor do cachê não preocupava a conta corrente.

Qatar

Num final de semana, Jonatas e Miriam precisaram viajar para dar o sinal verde num grande negócio, envolvendo uma montanha de dinheiro. Quantia suficiente para comprar diversos times do Barcelona, e de troco alguns AirbusA380. Para rivalizar com eles, talvez alguns bilionários donos de petrolíferas no Oriente Médio.

Porém, a vida é repleta de surpresas. Algumas delas desagradáveis. Após 10 horas, Jonatas e Miriam chegaram ao Qatar. Os advogados, que foram em outro avião, elaboraram documentos de redação sofisticada, anulando brechas que poderiam provocar algum prejuízo aos cofres da família.

Após algumas compras em Mônaco, o jatinho, apelidado de “fogo do céu”, levantou voo em direção ao Brasil. O negócio fechado horas antes no Qatar renderia muitos milhões. Nem a crise econômica brasileira preocupava Jonatas e Miriam. Aliás, crise era palavra desconhecida pelo casal.

Atlântico

O luxo excessivo da família rendia absurdos: vestiam roupas uma só vez, depois jogavam no lixo, calçados só entravam nos pés de ambos até tomar o rumo dos sacos recolhidos pelos garis. Os cães só comiam carne de primeira, sem nenhuma ponta de gordura. Quando apertavam as mãos de algum funcionário, logo lavavam com álcool. Tinham horror a pobres.

Quando o “fogo do céu” sobrevoava o Atlântico, 5 horas após sair da Europa, o sistema eletrônico do aparelho entrou em pane, e a 900 km/h ele embicou rumo ao oceano. Mesmo após diversas buscas, inclusive com o robô que localizou os restos do Airbus A330 avião da Air France que caiu perto da Costa brasileira em 2009, nenhum sinal de Jonatas e Miriam.

Meses depois, o assunto caiu no esquecimento da mídia. A morte, além de ceifar a vida, tem força para apagar da memória as lembranças, sejam boas ou ruins. Sem parentes, completamente desprezados pelos seus pais, Querino começou a perceber que a realidade é o sal do sonho.

Bonança

Por pressão dos acionistas, agora com 25 anos, ele teria de assumir o leme do gigantesco conglomerado. Afinal de contas, acionista gosta de lucro. A roda precisa girar para o dinheiro continuar entrando nas contas de pessoas que só conhecem o sinal verde da bonança.

Não demorou em Querino conhecer o impacto da palavra NÃO, além de adjetivos negativos em relação ao seu comportamento. A cabeça do agora jovenzinho mimado começou a entrar em parafuso. Nas reuniões do conselho ninguém lhe engolia. Nem o CEO contratado para receber suas ordens escapava das críticas.

Numa noite, o seu carro blindado acabou fechado em uma travessa da Avenida Cidade Jardim, no bairro onde ainda moram os bilionários que mandam no País. Logo, o fogo de metralhadoras .50 perfurou a lataria, outras rachadas dizimou o restante do pequeno exército de seguranças que o acompanhava.

Silêncio

Logo, ele foi arrancando, colocando em outro veículo. Após algumas horas estava num sítio de pequena cidade da Grande SP. Nos primeiros dias não houve pedido de resgate. Apenas silêncio. A refeição era macarrão instantâneo com carne moída e limonada. O banho era frio. Nada de sapatos luxuosos, apenas sandália de dedos.

Dois meses após o sequestro de cinema, a polícia não conseguia destrinchar o caso. Nenhum pedido de parte dos criminosos. Nada de exigência. Todos os funcionários passaram por rigorosos interrogatórios. Porém nada depôs contra eles. Até agentes do FBI entraram no caso, por ordem dos acionistas estrangeiros, mas nada mudou.

Numa noite Querino ouviu uma voz familiar. “Menino mimado! Voltei para lhe mandar ao inferno. Por sua causa minha vida virou pó, quando fui demitido após 30 anos servindo aos caprichos do seu pai. Hoje, você vai morrer, lentamente”, disse um ex-chofer mandado embora por justa causa, que se viu obrigado a entrar para o crime organizado, para não morrer de fome.

Vida

Querino foi proibido de olhar para o rosto do seu algoz. Apenas ouvia os insultos. “Aqui é o mundo cruel. Não aquele que os seus pais colocaram na sua cabeça. Aqui não é só sim. Aliás, tua vida vai depender do que eu lhe perguntar”, retrucou o vingativo ex-funcionário. O clima de terror virou rotina naquele cativeiro.

“Por sua causa, eu perdi minha família. Tive meu casamento liquidado. Se não fosse os “irmãos” do “partido”, eu estaria liquidado, no cemitério. Voltei para receber o que é meu”, desferindo um tapa no rosto de    Querino. Foi alertado de que tudo o que iria pedir, ouviria a palavra NÃO. “Clame por sua vida canalha”, ouviu o grito de um homem que lhe enfiou o cano de fuzil em sua boca.

A tortura durou diversos dias. O pânico tomou conta de Querino. O resgate foi pago no Exterior, numa conta fornecida pelos contatos dos criminosos. O valor era equivalente a várias mega senas acumuladas. “Você quer morrer canalha”, ouviu do seu algoz. “Não”! disse aos prantos. Infelizmente, a resposta é sim. O tiro certeiro arrancou parte do crânio dele. Às vezes, as pessoas aprendem muito tarde que o mundo não é só sim!

 

 

FONTE/CRÉDITOS: Aristóteles Ambrósio
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