Margarete, executiva de sucesso no mercado financeiro, subia pelas paredes quando chegava a menstruação. As cólicas terríveis azedavam o seu humor. Neste período não gostava de ficar ao lado de ninguém, porque o risco de perder a paciência era fração de segundos.
Na diretoria da filial de um conglomerado norte-americano, fazia a roda girar velozmente, proporcionando muitos elogios da matriz no Exterior. Tinha mão de ferro. Não admitia deslize ou falsidade. Esses dois sinais significavam senhas de demissão.
Aos 45 anos, casada, com um professor de antropologia, levava a vida tranquilamente. Assim como no trabalho, em casa o leme permanecia em suas mãos. As duas filhas, ambas de 20 e 23 anos, conheciam o temperamento da mãe: explosivo em relação a mentiras.
Plano Real
Como mulher tecia diversas críticas à Medicina, quando assistia entrevistas de médicos elogiando o período de menstruação, na opinião deles a prova viva da essência da vida. Afinal de contas, mulher que não menstrua é incapaz de engravidar, pois é este sangue que ajuda na formação do bebê.
No departamento onde estava há 20 anos, onde começou como estagiária, os funcionários mais velhos a conheciam. Muitos procuravam não bater de frente com ela. Sabiam que o resultado poderia significar a saída pela porta da frente sem retorno.
Corria o início do Plano Real, em 1994, com a inflação voltando ao controle do governo. Os números não mudavam rapidamente como na época em que o preço de qualquer produto subia várias vezes no comércio, para se evitar prejuízo.
TPM
A matriz da empresa acompanhava atentamente o desenrolar de mais uma tentativa de o governo brasileiro matar de vez o fantasma da hiperinflação. Margarete elaborava planilhas e repassava os dados à presidência nos Estados Unidos. Colocava até mesmo desconfiança em relação a algum procedimento adotado pela equipe econômica.
Para torrar sua paciência, soube que participaria de reunião importante, onde decisões de grande impacto estariam no cardápio. Justo naquele dia, a TPM a pegou de vez. Afetou terrivelmente o seu humor, quando deveria sorrir o tempo todo para o restante dos diretores.
Foi à janela e percebeu que o céu escureceu anunciando grande tempestade. Foi ao banheiro, olhou na bolsa e tinha se esquecido do absorvente. Não poderia ir à farmácia rapidamente, porque a reunião já tinha começado. Nervosa bateu a palma da mão no trinco da porta do banheiro e se machucou. O céu escuro combinou com o dia de Margarete....
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