Anacleto estava inserido no time dos bem tratados pela vida. Banqueiro, ganhou muito dinheiro após o final da Segunda Guerra Mundial e Regime Militar de 1964. Tinha tudo nas mãos. Desde atrizes famosas a modelos expert em sair nas capas de revistas do Brasil e Europa. Só vestia uma roupa por vez. Depois jogava fora e mandava incinerar.
Na adega da mansão, num luxuoso condomínio fechado de Aldeia da Serra, degustava os melhores vinhos e whiskies do mundo. A garagem gigantesca era repleta de carros importados, inclusive de Ferraris nas cores vermelha, amarela e azul. Nos seus 90 anos nunca conheceu as agruras da pobreza. Só bonança e luxo.
Para cuidar da casa, com 22 cômodos, tinha 12 funcionários, comandado com mão de ferro pela governanta Marisa, que o acompanhava há 40 anos. No almoço, os talheres de prata não podiam faltar à mesa, assim como pratos e travessas importados do Oriente. A toalha, de linho fino, trazida de Israel, marcava eterna presença nos almoços e jantares.
Felicidade
Mesmo com todo esse luxo, Anacleto não conseguia compreender a eterna alegria que o cozinheiro, Jonas, trazia àquela residência. Mesmo ganhando baixo salário, nunca reclamou ou fez qualquer tipo de crítica. Apenas agradecia a Deus por estar ali, trabalhando, cerca de 12 horas diárias.
Certo dia, Anacleto perguntou a ele, a razão de tamanha felicidade, mesmo derramando muito suor para garantir o salário do mês. “Patrão, a minha maior riqueza é a saúde e família maravilhosa que Deus colocou ao meu lado”, disse, preocupado com o cardápio do dia. “Você nunca sonhou em viajar para outros países, ter dinheiro em abundância”, questionou.
“Nas minhas orações eu viajo sempre. Quanto ao dinheiro não tenho esse sonho. Porque ao morrer, não irei levá-lo. E quem ficar com ele, irá gastar sem dó, pois não se sacrificou para ganhar”, respondeu. Anacleto tinha cinco filhos, 12 netos e seis bisnetos. Todos torcendo para que a morte o levasse embora e a fortuna pudesse ser repartida e torrada rapidamente.
Lesão
Os prazeres proporcionados pela fortuna já não satisfaziam o velho banqueiro. Nem as noites de sexo com mulheres lindas, que fingiam sentir prazer ao seu lado, mas preocupadas apenas no gordo cachê pago por aquelas falsas horas de amor. Numa tarde, ao caminhar pelo amplo quintal da mansão, Anacleto tropeçou e caiu de costa sobre um bloco de mármore no chão.
Socorrido rapidamente, sua equipe médica de confiança detectou que uma das vértebras da coluna sofreu grave lesão, provocando paralisia nas pernas e braços. Poderia voltar a ter movimentos físicos ou não. Passou a viver na cama. Ali se alimentava, e fazia suas necessidades fisiológicas em fraldas. A comida era servida na sua boca, porque não conseguia segurar o talher.
No desespero, certo dia chamou Jonas e lhe fez a proposta de que ele pedisse a Deus para trocar de lugar. Aceitaria trabalhar 12 por dia na beira de um fogão e forno quente cozinhando, desde que voltasse a ter vida normal. O funcionário não respondeu nada. Apenas disse que cada pessoa tem o peso exato da cruz que aguenta carregar. Naquele dia, Anacleto soube que o salário do seu funcionário era usado para manter viva sua esposa, que vegetava sobre uma cama há 12 anos....
Comentários: