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Quarta-feira, 12 de Agosto de 2026
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Crônica

Grandes qualidades livram das garras do sofrimento

Naqueles incendiários anos 60, não existia Metrô, muito menos celulares ou internet

Redação
Por Redação
Grandes qualidades livram das garras do sofrimento
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 Honestidade! Essa palavra definia o policial Cidão.  Pegou osso duro de roer na agitada década de 60. Por causa do Regime Militar não era novidade encontrar pela frente grupo de jovens extremistas de esquerda, que em nome de um ideal político, atacava qualquer pessoa que trabalhasse na Polícia.

Porém, Cidão não tinha medo de confusão. Confiava em sua pontaria. Hábil conseguia arrancar a tampa de uma garrafa numa distância de 50 metros. Desconfiava até da sua sombra. Ninguém merecia sua confiança. Muito menos colegas de tropa, justificado por causa dos infiltrados, usados para desvio de armas dos quarteis.

QG central

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Naqueles incendiários anos 60, não existia Metrô, muito menos celulares ou internet. Na rua, o meio de comunicação mais usado era o famoso telefone público, apelidado de orelhão pela população. O rádio dos carros da PM não funcionava bem. Interferências rotineiras aconteciam com frequência. Principalmente quando se estava longe do QG central.

Da época em que estudou na Academia do Barro Branco, nunca esqueceu a lição de que, independente da situação, sempre confiasse no seu revólver. Ele teria menos risco de falhar do que um colega de ronda. Arma não se corrompia, pessoas sim, principalmente quando o sentimento falava mais alto.

Folga

Aos 35 anos, Cidão estava perdidamente apaixonado por uma morena, de olhos cor de mel, que havia conhecido num bar do Vale do Anhangabaú, esquina com a Avenida São João. Logo os dois se conheceram melhor nos finais de semana em que ele estava de folga. Algo profundo. Pensava em Noemia a toda hora.

Residente na Cidade Leonor, Zona Sul de SP; logo Cidão passou a marcar presença na casa de sua amada, que morava com um irmão estudante de Filosofia na USP (Universidade de São Paulo). Quando se encontravam, conversavam pouco. Só com Noemia travava o diálogo do amor, nos lençóis brancos iguais a neve, que decorava a cama em que ela dormia.

Fome

Numa tarde, Cidão percebeu que o futuro cunhado estava envolvido com extremistas e poderia se dar mal, caso caísse nas mãos da repressão. O aconselhou, mas acabou ignorado. Falou com Noemia e sua amada revelou preocupação.  A intuição de policial sugeriu que ele dormisse ali aquela noite. Juntou a fome com a vontade de comer.

De madrugada percebeu que a casa estava cercada. Olhou pela fresta da janela e viu várias vans C-14, sem as cores da Polícia. Farejou encrenca. Acordou Noemia. O futuro cunhado se encontrava viajando. Não poderia enfrentar os mais de 18 homens, munidos de carabinas calibre 12. Por causa da escuridão, era difícil visualizar quem comandava a operação.

 

Logo a porta da frente da casa, de seis cômodos, acabou derrubada. Em minutos o quarto ficou cheio de homens, todos babando de raiva. Já foram para cima de Noemia, puxando-a pelos cabelos, sendo esbofeteada várias vezes para falar onde estava o seu irmão. Ela apenas chorava, em vez de responder.

Cidão pulou da cama com o seu 38 na cabeça de um dos policiais, mostrando sua credencial. Como a sorte aparece nas horas difíceis, um deles o reconheceu e pediu calma ao restante dos homens. A honestidade e serenidade dele foram lembradas, além de sua lendária pontaria. A operação acabou abortada. Às vezes uma grande qualidade nos livra do sofrimento....

FONTE/CRÉDITOS: Aristóteles Ambrósio
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