São Paulo de Fato

Ex-detento vira ator em série da Netflix

Hugo Leonardo é morador da Brasilândia

Hugo Leonardo atua em série da Netflix Crédito: Guilherme Balza/CBN

"Tem penitenciárias que são conhecidas como depósitos. Porque chegou lá, seu processo para. Foi o que aconteceu comigo. Eu teria que ter saído com dois anos."

No dia 24 de agosto de 2018, Hugo Leonardo de Assis deixava a penitenciária Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos, na Grande São Paulo, onde ficou quatro anos. Ele usava a calça bege dos detentos e carregava um alvará, uma sacola de roupas e a vontade de mudar de vida.

Os desafios começam já na saída. Os ex-detentos precisam atravessar a Via Dutra num trecho sem passarelas e dependem da boa vontade dos motoristas de ônibus pra conseguir carona. Hugo quase foi preso numa estação de metrô porque achavam que ele era fugitivo. Mas nesse mesmo dia que saiu da prisão, recebeu uma boa notícia.

"Quando eu cheguei em casa o telefone tocou. Era pra eu fazer um teste, que era indicação. Meu olho brilhou: 'Nossa tô num mundo que não é meu'."

Hugo é um dos três ex-detentos que trabalharam como atores na série "Sintonia", lançada há um mês pela Netflix. Outro ator estava em liberdade há quatro anos, deixou a vida do crime, mas foi condenado em um processo antigo e voltou pra prisão.

Hugo já tinha trabalhado como figurante nas séries "Antônia" e "Cidade dos Homens", mas a carreira artística não foi pra frente. Antes de ser preso, ele tinha uma barraca de batata frita, e o dinheiro não dava. Decidiu roubar um carro com um amigo. Foi detido na mesma rua do crime. Acabou condenado a seis anos.

"O que que eu fiz? Nem precisava, cara. Perdi tudo. Tinha um carro, a barraca de batata frita estava começando a andar. Joguei tudo pro alto. Até hoje eu não entendo."

Dentro da penitenciária, veio o medo da solidão.

"O medo de me pegarem, 'como eu vou viver?', 'minha família vai me abandonar'... Pra você andar bem você tem que falar pouco, ouvir muito, e não depender de ninguém. Quem não tem visita é que mais sofre. Quem não tem ninguém não vai sair de lá melhor. Vai sair pior. Eu vi gente ficar louco, vi gente tentar se matar."

Aos poucos, foi entendendo o funcionamento da cadeia.

"O funcionário resolve as coisas da cela, do portão, para fora. Lá dentro quem resolve é a rapaziada. Pra não ter rebelião, pra ninguém roubar nada de ninguém, pra acabar um pouco com a agressão 'desnecessária'. É o chamado pessoal da 'linha de frente' do presídio, né, para não falar nomes. Um é responsável pela faxina, outro pela alimentação... Muitas vezes a comida tem que voltar porque chega rato, vidro, pedaço de arame. Pra quem tem problema de saúde, eles não deixam entrar remédio. Só com receita. E quem não tem receita? Morre."

Hugo conta que sempre quis trabalhar com arte. Assim como os outros ex-detentos da série, ele participou do grupo de teatro da penitenciária e se reencontrou com a vocação.

"O teatro lá no Marrey foi o divisor de águas pra acontecer o que está acontecendo hoje. Escrevi 60 funks, 25 músicas gospel, seis raps, dois sambas, um enredo de carnaval, aprendi a tocar violão sozinho e tenho seis livros quase completos. Muita gente tinha aquele preconceito: 'você é louco, vou pôr uma saia? Sou bandido, tô preso, tô fazendo teatro, mas não vou pôr saia'. Já deixavam bem claro: 'Gente, teatro não é cadeia, não é polícia, não é ladrão. Teatro é arte, é cultura'. E todo mundo que participou, eu procurava falar assim: 'quer fazer um teste, imita uma mulher fazendo um parto. Deixa o machismo de lado que você passa'. Se abrir e começar a compreender esse mundo, é difícil, tem que ir trabalhando, mostrando direção, dando bons exemplos."

"Sintonia" mostra a realidade de três jovens numa época que já não há mais grandes perspectivas pra quem é da favela.

Um acaba no crime, outro numa igreja evangélica e um terceiro tenta virar MC de funk. A realidade de Hugo não é muito diferente: ele passou nos testes para três empregos, mas no fim foi barrado por ser ex-detento.

Agora, a participação na série provoca um sentimento de euforia. Ele é reconhecido na rua, nos bailes, lançou canal no Youtube, mas continua morando em uma casa simples no Morro Grande, periferia de São Paulo. O desejo dele é montar uma produtora no bairro e fazer um curso profissionalizante para não ficar preso aos papéis ligados à vida do crime.

"Eu tenho certeza que qualquer papel que me colocar - não estou falando que eu sou perfeito - eu vou tentar fazer o melhor de mim. Então, eu vou pra cima, eu vou enfrentar. Pode ser o papel de um policial, de um médico, o que for. Se é teatro, é arte, eu não vou me prender ao personagem. Não vou trazê-lo pra minha vida."

Fonte

CBN
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Ex-detento vira ator em série da Netflix

CBN

"Tem penitenciárias que são conhecidas como depósitos. Porque chegou lá, seu processo para. Foi o que aconteceu comigo. Eu teria que ter saído com dois anos."

No dia 24 de agosto de 2018, Hugo Leonardo de Assis deixava a penitenciária Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos, na Grande São Paulo, onde ficou quatro anos. Ele usava a calça bege dos detentos e carregava um alvará, uma sacola de roupas e a vontade de mudar de vida.

Os desafios começam já na saída. Os ex-detentos precisam atravessar a Via Dutra num trecho sem passarelas e dependem da boa vontade dos motoristas de ônibus pra conseguir carona. Hugo quase foi preso numa estação de metrô porque achavam que ele era fugitivo. Mas nesse mesmo dia que saiu da prisão, recebeu uma boa notícia.

"Quando eu cheguei em casa o telefone tocou. Era pra eu fazer um teste, que era indicação. Meu olho brilhou: 'Nossa tô num mundo que não é meu'."

Hugo é um dos três ex-detentos que trabalharam como atores na série "Sintonia", lançada há um mês pela Netflix. Outro ator estava em liberdade há quatro anos, deixou a vida do crime, mas foi condenado em um processo antigo e voltou pra prisão.

Hugo já tinha trabalhado como figurante nas séries "Antônia" e "Cidade dos Homens", mas a carreira artística não foi pra frente. Antes de ser preso, ele tinha uma barraca de batata frita, e o dinheiro não dava. Decidiu roubar um carro com um amigo. Foi detido na mesma rua do crime. Acabou condenado a seis anos.

"O que que eu fiz? Nem precisava, cara. Perdi tudo. Tinha um carro, a barraca de batata frita estava começando a andar. Joguei tudo pro alto. Até hoje eu não entendo."

Dentro da penitenciária, veio o medo da solidão.

"O medo de me pegarem, 'como eu vou viver?', 'minha família vai me abandonar'... Pra você andar bem você tem que falar pouco, ouvir muito, e não depender de ninguém. Quem não tem visita é que mais sofre. Quem não tem ninguém não vai sair de lá melhor. Vai sair pior. Eu vi gente ficar louco, vi gente tentar se matar."

Aos poucos, foi entendendo o funcionamento da cadeia.

"O funcionário resolve as coisas da cela, do portão, para fora. Lá dentro quem resolve é a rapaziada. Pra não ter rebelião, pra ninguém roubar nada de ninguém, pra acabar um pouco com a agressão 'desnecessária'. É o chamado pessoal da 'linha de frente' do presídio, né, para não falar nomes. Um é responsável pela faxina, outro pela alimentação... Muitas vezes a comida tem que voltar porque chega rato, vidro, pedaço de arame. Pra quem tem problema de saúde, eles não deixam entrar remédio. Só com receita. E quem não tem receita? Morre."

Hugo conta que sempre quis trabalhar com arte. Assim como os outros ex-detentos da série, ele participou do grupo de teatro da penitenciária e se reencontrou com a vocação.

"O teatro lá no Marrey foi o divisor de águas pra acontecer o que está acontecendo hoje. Escrevi 60 funks, 25 músicas gospel, seis raps, dois sambas, um enredo de carnaval, aprendi a tocar violão sozinho e tenho seis livros quase completos. Muita gente tinha aquele preconceito: 'você é louco, vou pôr uma saia? Sou bandido, tô preso, tô fazendo teatro, mas não vou pôr saia'. Já deixavam bem claro: 'Gente, teatro não é cadeia, não é polícia, não é ladrão. Teatro é arte, é cultura'. E todo mundo que participou, eu procurava falar assim: 'quer fazer um teste, imita uma mulher fazendo um parto. Deixa o machismo de lado que você passa'. Se abrir e começar a compreender esse mundo, é difícil, tem que ir trabalhando, mostrando direção, dando bons exemplos."

"Sintonia" mostra a realidade de três jovens numa época que já não há mais grandes perspectivas pra quem é da favela.

Um acaba no crime, outro numa igreja evangélica e um terceiro tenta virar MC de funk. A realidade de Hugo não é muito diferente: ele passou nos testes para três empregos, mas no fim foi barrado por ser ex-detento.

Agora, a participação na série provoca um sentimento de euforia. Ele é reconhecido na rua, nos bailes, lançou canal no Youtube, mas continua morando em uma casa simples no Morro Grande, periferia de São Paulo. O desejo dele é montar uma produtora no bairro e fazer um curso profissionalizante para não ficar preso aos papéis ligados à vida do crime.

"Eu tenho certeza que qualquer papel que me colocar - não estou falando que eu sou perfeito - eu vou tentar fazer o melhor de mim. Então, eu vou pra cima, eu vou enfrentar. Pode ser o papel de um policial, de um médico, o que for. Se é teatro, é arte, eu não vou me prender ao personagem. Não vou trazê-lo pra minha vida."