Por Tarsis de Andrade
Meu amigo, meu amigo,
Se você me permite a intimidade, vou contar como foi a grande reunião de família que aconteceu aqui no coração da Amazônia. A COP30, em Belém, não foi uma conferência qualquer. Foi um espelho incômodo. Um daqueles espelhos grandes, de corpo inteiro, que a gente evita olhar de manhã, mas que, cedo ou tarde, não tem como fugir.
A linda cidade de belém fervilhava com seus 50 milhões de habitantes segundo a atual primeira dama. O mundo inteiro desembarcou no Pará com suas melhores intenções e seus piores vícios. Era como assistir a uma grande reunião de condomínio, onde o síndico (no caso, o Brasil) tenta convencer todos os moradores a parar de jogar lixo pela janela, enquanto alguns insistem que o lixo deles é especial, gera emprego, movimenta a economia.
E no centro de tudo, a floresta que bate recorde em desmatamento. Ela era a convidada de honra que não precisava falar. Sua simples presença, seu ar úmido, seu verde infinito, diziam tudo: "Olhem para mim. Eu sou a solução. Mas estou sangrando seiva e sangue humano."
O resultado da festa? Um acordo que foi como um abraço apertado, mas de braços curtos. Conseguimos avanços importantes: criamos um manual para medir quem está se adaptando de verdade às enchentes e secas, e acertamos os detalhes de uma "transição justa" para ninguém ficar para trás. Foi como combinar, finalmente, como vamos dividir a conta do conserto do telhado.
Mas, e o incêndio na mata? Ah, meu caro, esse a gente não apagou.
A grande briga, a que todo mundo esperava, foi sobre a fonte do problema: petróleo, gás, carvão e petróleo fossil. E aí, a velha política mostrou suas garras. Países que vivem do ouro negro travaram o jogo. O texto final, aquele que todos assinam, saiu sem uma única menção à necessidade de deixarmos os combustíveis fósseis no passado. Uma reunião sobre um incêndio que proíbe falar em fogo enquanto se espalha.
E foi aí que o Brasil, com a esperteza de quem sabe jogar xadrez na escola primaria, fez sua jogada mestra. Disse, basicamente: "Tudo bem, vocês não querem assinar o documento? Então não assinem. Mas nós, por nossa conta e risco, vamos criar um mapa do tesouro paralelo." O presidente da COP anunciou uma "rota paralela", um grupo de trabalho para desenhar, de uma vez por todas, o planejamento global para um mundo sem fósseis.
É a famosa "lei do Gerson" aplicada para o "bem". Se a porta da frente está trancada, use a dos fundos. Se não dá para fazer pelo consenso, vamos fazer pela persuasão, pelo exemplo, pela teimosia.
E Agora, Brasil? A Solução que Mora no Meio
A pergunta que fica é: para onde vamos a partir daqui? Como fazer todos os países, cada um com suas dores e seus sonhos, remar na mesma direção?
A resposta, eu acredito, não está nos grandiosos tratados, mas no chão de Belém. Está em três ideias simples, porém profundas:
1. Pare de Brigar e Comece a Negociar de Verdade: Não é sobre "salvar o planeta". O planeta sobrevive. É sobre salvar a nossa civilização. Em vez de discursos, que tal uma troca? "Vocês, países ricos, pagam pela tecnologia limpa. Nós, países com florestas, garantimos que elas ficam de pé. E vocês, produtores de petróleo, recebem ajuda para diversificar suas economias." É interesse, não é caridade.
2. A Riqueza é Verde (e Amarela, e Azul): Precisamos de uma nova métrica. O PIB de um país não pode medir só o que é tirado da terra (petróleo, minério), mas também o que a terra mantém de pé. Uma árvore em pé vale mais do que uma árvore no chão. Um rio limpo vale mais do que um rio poluído. Quando isso fizer parte da planilha de Excel de todo governante, a conversa muda.
3. O "Mapa do Tesouro" do Brasil é a Chave: Essa "rota paralela" não pode ser só mais uma reunião. Ela tem que ser um processo transparente, que mostre, com números e fatos, que a energia solar e eólica já são mais baratas, que a bioeconomia da floresta gera emprego, e que o primeiro país a dominar a tecnologia do hidrogênio verde vai ficar bilionário. É mostrar o dinheiro e fazer valer que "quem chega cedo bebe água limpa".
No fim das contas, a COP30 em Belém não foi um fracasso completo apesar dos fatos, e críticas posteriores a infraestrutura brasileira que, segundo os estrangeiros alimenta ar condicionado com diesel para os investidores do meio ambiente. Foi um realinhamento. Foi o momento em que o mundo, olhando para a imensidão amazônica, entendeu que a solução não é só desligar uma fonte de energia, mas acender sem combustível fóssil uma nova forma de pensar.
A gente saiu de lá com a lição de casa feita pela metade e o nosso presidente num iate que consome centenas de litros de combustível fóssil por hora dando bom exemplo de como o Brasil cuida do meio ambiente. A parte fácil, está no papel. A difícil, a que importa, a de mudar o coração e a carteira das nações, essa ficou para lição de casa valendo nota. E o Brasil, com sua malandragem criativa, se ofereceu para ser o confiável monitor.
Aguardemos os próximos capítulos. A esperança do cuidado com o meio ambiente é só teimosia ou o mundo sustentável é financeiramente viável?
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