Não é novidade ouvir que o amor de mãe é insuperável. Pelo filho, ela faz o que é impossível para muitos. Até sacrificar a própria vida. Cláudia era exemplo deste tipo de testemunho. Na adolescência engravidou e teve trigêmeos. Para aumentar o sofrimento, de parto natural. Cidade do interior do Pará, lugarejo afastado uns 600 quilômetros de Belém.
Quando percebeu que a vida seria muito dura, ajuntou uns trocados, vendeu a pouca mobília de casa, subiu na boleia de um caminhão e apertada, na cabine, veio tentar a vida em São Paulo, aonde chegou com a cara e a coragem, no Ceagesp, numa fria madrugada de Outono na década de 1970, quando o frio era intenso na famosa “terra da garoa”.
Ceagesp
Logo, chamou a atenção dos comerciantes. Jovem, de 20 anos, com três meninos de dois anos, junto dela, enroladoss num cobertor para se manter aquecidos. Gervásio, cearense, de coração mole, ao vê-la, a convidou para passar alguns dias em casa. Ali, Cláudia colocou tudo em ordem. Lavava as roupas, fazia a faxina e cozinhava.
O tempo passava e ela deixava a casa cada vez mais bonita. Sozinho, Gervásio só tinha olhos para a banca de legumes na Ceagesp. Sobrava pouco tempo para o imóvel de sala, cozinha, banheiro, quarto e área de serviço, além de amplo quintal, no bairro do Butantã, Zona Oeste de SP.
A diferença de idade entre eles era de 20 anos. Mas Gervásio olhava Cláudia como filha e os três meninos como seus netos. Assim o tempo passou. Num intervalo de 15 anos, os meninos já estavam no antigo curso ginasial (atual Ensino Fundamental) e Cláudia havia montado um salão de beleza, bem frequentado no bairro.
Lágrimas
Numa festa de aniversário dos três filhos, regada à comida típica da região amazônica e cachaça de alambique. Um desocupado invadiu o local e ameaçou os convidados. Quando mirou a arma para os meninos, o instinto de defesa de mãe aflorou em Cláudia. Entrou na frente e pôs o rosto diante da pistola automática 7.65, de 15 tiros.
As pessoas presentes ao aniversário conhecia a fama do malandro, que era famoso no bairro por aterrorizar os moradores. Logo, o quintal ficou vazio. De um lado Cláudia, junto dos seus filhos e Gervásio; do outro a morte querendo destruir mais uma família. Num estalo, ela agarrou no cano da arma e virou para o queixo do terror do Butantã. Ouviu-se um disparo. Ambos caíram. Segundos depois, Cláudia enxugou as lágrimas e abraçou os filhos e o marido. O instinto de mãe trouxe a tão esperada paz para o bairro que a acolhera como filha há quase 20 anos...
Comentários: