Gilson era um executivo bem-sucedido. Casado com uma mulher linda, tanto de corpo quanto de espírito. Tinha três filhos maravilhosos. Todos já com formação universitária e exercendo a profissão. Morava num condomínio de luxo em Aldeia da Serra, na Grande SP. Enfim, dinheiro para ele sobrava na conta corrente.
Kátia o levava nas nuvens na arte de fazer amor. Nem parecia que já havia chegado a meio século de caminhada. Morena jambo, corpo escultural e cabelos lisos e grosso, semelhante aos das índias. Em 30 anos de casamento jamais cedeu à tentação do adultério, mesmo quando as mulheres o convidavam para uma reunião de negócios, em alguma praia paradisíaca. Dizia não.
Apaixonado
Por razões que a própria razão desconhece, de repente começou a recordar-se de uma namorada de final de adolescência. Cícera, loira, baixinha, mas de beleza para deixar qualquer homem sem rumo. Foi apaixonado por ela. Tentou de todo jeito ficar ao seu lado. Porém, o destino se encarregou de separá-los.
Às vezes estava no trânsito, aguardando o semáforo abrir, em sua mente vinha o sorriso lindo de Cícera, o olhar faceiro e cativante não saia da lembrança. Não conseguia entender o porquê de tudo sair do baú das lembranças 35 anos depois. Perdera o contato com ela. Pois sua família se mudou para Porto Alegre e o contato chegou ao fim.
Delírio
Como fuga, imaginava se tivesse casado com Cícera. A felicidade andaria lado a lado junto deles? E os filhos? A casa? O sucesso profissional? Enfim, tentava visualizar o casamento com a mulher que adorava. O deixava louco, quando não comparecia aos encontros para passear de mãos dadas no Parque Ibirapuera. Lembrava-se do suor brotando na palma de suas mãos, fruto da quente paixão.
Numa tarde Kátia o surpreendeu divagando. Tentou disfarçar, inventou uma desculpa e saiu da sala. O delírio era tão forte, que Gilson olhava para sua esposa, mas enxergava Cícera. Ao fazer amor, quando estava no auge do prazer, quase falou o nome da ex-amada. Ao longe, no jardim da casa, um empregado ouvia o refrão do samba de Monsueto: “a gente ama verdadeiramente uma vez, outras são puras tentativas, digo com nitidez....”
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