Dionísio sentiu a alegria de ser pai aos 15 anos, quando percebeu que a mulher de sua vida seria Marília, na época com 16 anos. Menina levada, porém bonita de corpo e rosto. Aparentava ter mais de 20. Seus dentes eram brancos, iguais a marfim e lindos olhos verde garrafa.
Quando soube da notícia, o velho Gervásio, pernambucano rígido nas normas familiares, logo obrigou Dionísio a assumir o filho ou ele iria arrancar o couro do seu corpo na base do chicote, feito de rabo de tatu. Não teve escolha. Arrumou um quartinho no fundo do quintal e adotou a vida de casado.
Já adolescente era hábil em carpintaria, além de entender um pouco de instalações elétricas e mecânica de carro. Com essas habilidades montou sua casa e não deixava sua amada passar fome, nem ficar sem o básico para a higiene do casal, principalmente de Marília.
Paixão
Eles amaram muito o gosto do amor. Após 12 anos morando juntos, já eram pais de dez filhos: cinco meninos e cinco meninas. Trabalhando 18 horas diárias, a comida estava sempre presente na mesa. Marília fazia doce e vendia nas portas das fábricas de Campinas.
A cada ano, mais forte ficava a união do casal. O amor entre eles tinha grande intensidade. Não ficavam distante do outro. Mantinham o mesmo carinho da época de adolescência. Quando saiam, andavam abraçados e às vezes se beijavam na boca em público. O fogo da paixão passados 20 anos lembrava uma caldeira em ebulição.
O tempo voou para Dionísio e Marília. Quando completaram 35 anos de casados e os filhos já encaminhados, com todos estudando em faculdades e a metade já ao lado de suas famílias, um câncer levou embora Marília. Os olhos verdes que tanto seduziram Dionísio se fecharam para sempre numa noite de Natal.
Jesus
Dos dez filhos, três ainda dependiam dele. Manteve o mesmo ritmo de trabalho e até o trio se casar e tomar rumo na vida. Aos 60 anos, Dionísio estava sozinho. Agradecia todos os dias a Jesus Cristo, por ter lhe dado força e inteligência para criar seus dez filhos. Nenhum usou droga ou entrou no caminho errado.
Quando chegou aos 70 anos percebeu que suas forças físicas já não eram as mesmas da época de juventude. O pensamento continua veloz, porém o corpo demorava em dar a resposta rapidamente. Logo suas mãos começaram a tremer. No médico descobriu que o Mal de Parkinson havia lhe escolhido para atormentar.
A intensidade foi tão grande que Dionísio não conseguia mais comer sozinho ou trocar de roupa. Procurou ajuda dos filhos. Nenhum aceitou cuidar dele. Numa tarde, uma perua vendendo fruta parou diante da casa onde Marília e Dionísio criaram todas suas dez crianças.
Asilo
Do alto falante era possível ouvir a famosa música caipira “De que um pai cuida de dez filhos e dez filhos não cuidam de um pai”. Dionísio não deu importância. Sabia que não iria ficar sozinho. Suas crianças estenderiam as mãos e tudo voltaria ao normal.
Porém, o Mal de Parkinson não dá trégua para suas vítimas. Quanto mais avança, pior é o estado do paciente. A situação de Dionísio passou a preocupar os vizinhos. Eles é quem cuidavam dele, inclusive na higiene pessoal. Dependia dos outros para se alimentar.
O avanço da doença lhe despertou a saudade intensa da amada Marília. Companheira de batalha. Nunca lhe deixou na mão. Estava sempre ao seu lado, na alegria ou tristeza, saúde ou doença. Numa tarde ao não conseguir se levantar do sofá para ir ao banheiro, caiu no chão. Naquele instante percebeu que dez filhos nunca conseguirão criar um pai. Ele era exemplo disto....
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