Castrino era casado há 35 anos com Marta, morena cor de chocolate,
olhos castanhos, cabelos encaracolados, corpo mignon. Mulher de
provocar congestionamento em qualquer lugar que passasse. Conquistou
Castrino na cama e fogão. Uma noite de amor ao lado dela, era para
provocar overdose de êxtase sexual.em Medicina, casados e residentes
nos Estados Unidos. Mesmo assim, a mansão no Morumbi ainda sediava
festas requintadas.
A vida de ambos, matrimonial e empresarial, estava em céu de
brigadeiro. No ramo de Comércio Exterior, conquistaram respeito dos
concorrentes. Dinheiro sobrava na conta corrente. Dois filhos formados
Com equipe de 50 funcionários. Castrino logo percebeu que a recepção
tinha nova titular. Helena, 21 anos, 1º ano do Ensino Médio, residente
no bairro de Ermelino Matarazzo, extremo da Zona Leste, saia de casa
às 5h30 da manhã para chegar às 9h na Líbero Badaró, onde ficava seu
novo trabalho.
Marfim
Observador e amante de lindas mulheres; Castrino logo se encantou por
Helena. Branca, pernas bem torneadas, cabelos lisos na altura dos
ombros, olhos verde garrafa, seios médios, lábios carnudos, dentes
brancos iguais ao marfim e voz de veludo. Seus colegas de serviço logo
ficaram alucinados por ela.
Não demorou seis meses para Castrino e Helena passarem a se amar
loucamente. Na cama, ela o deixava maluco. Sussurrava palavras
amorosas ao ouvido do patrão, agora amante, e a temperatura subia
rapidamente. Não demorou em a paixão dominar Castrino por completo e
Marta, que lhe ajudou na época das vacas magras passou a ficar de
lado.
Logo promoveu Helena como sua secretária. A desejava 24 horas por dia.
Bancou um curso de inglês para ela. Deu-lhe um cartão de crédito, cujo
limite entrava na conta da empresa. A cada dia, Helena mais linda
ficava. Nas viagens de negócio ao Exterior, que eram frequentes,
passou a levá-la. Numa delas, os dois transaram numa suíte de
cobertura de sofisticado hotel de Dubai.
Romeu
Após dois anos, perdidamente apaixonado, Castrino resolveu pedir o
divórcio para ficar ao lado de Helena. Marta não o cativava mais,
mesmo sendo excelente na cama, também. A química entre ambos havia se
esgotado. Só de ver Helena, o coração de Castrino, há 65 anos pulsando
no seu peito, disparava. Nem o amor de Romeu por Julieta chegaria
perto.
Íntimo, já frequentava a casa de Helena, uma residência de quatro
cômodos, onde ela dividia com a mãe e o irmão adolescente, que havia
nascido paraplégico. Família honesta, era bem vista no bairro. Nunca
se envolveram em qualquer tipo de encrenca. Helena jamais se envolveu
nas famosas paixões de adolescentes. Castrino era o seu primeiro amor.
Após final de semana prolongado de Carnaval, Helena faltou ao
trabalho. Algo raro. Castrino, preocupado, ligou para sua sogra. Soube
que ela foi internada às pressas no Hospital das Clínicas. Tinha
suspeita de leucemia, logo confirmada pelos médicos. O sangue dela
estava, literalmente virando “água”.
Divórcio
Castrino tomou um choque. Logo, a mulher de sua vida. Alguém que
conquistou seu coração. Ela começou a fazer tratamento de
quimioterapia. Afastou-se do serviço. O salário continuou sendo pago.
Logo os cabelos de Helena começaram a cair, ficou pálida e passou a
vomitar frequentemente.
Em casa, Marta percebeu que ele não fazia mais sexo com ela. Até o
almoço aos finais de semana saiu de sua agenda. Virou rotina ser pego
aos prantos, na empresa e no banheiro de casa, quando tomava banho. O
projeto de pedir o divórcio e morar para sempre com Helena entrou no
time da indecisão.
Decisão difícil: tirar de sua vida, a mulher que lhe ajudou na época
de pobreza, sem crédito nos bancos, ter apenas dois paletós, um par de
sapatos, de solado furado e sem perspectiva profissional alguma.
Enfim, o transformou num milionário. Nome respeitado no disputado
mercado de Comércio Exterior.
Quimioterapia
Ou mergulhar de cabeça em outro relacionamento, com alguém que em um
prazo de dois anos entrou para o triste e sofrido time dos cancerosos.
Cuja vida não seria longa e chegaria ao fim tragicamente. O que fazer?
Nem sexo Helena conseguia fazer mais com Castrino. Dos seus 65 quilos,
o câncer já lhe havia roubado 20 quilos no processo de quimioterapia.
Conversou com um amigo médico, especialista em tratamento de câncer e
soube que Helena teria pouco tempo de vida. Talvez mais um ano. De tão
agressivo, ela passou há ficar mais tempo deitada. Andava pouco, pela
casa. Sua beleza se acabou. Não parecia mais aquela jovem de 21 anos,
mas alguém bem castigada pela idade.
Numa noite, o celular de Castrino tocou. Era a mãe de Helena, pedindo
que ele fosse rapidamente vê-la. Saiu às pressas, ignorou a violência.
Após algum tempo chegou à casa de sua então amada. Entrou no quarto e
viu Helena delirando. Dizia ver um jardim muito bonito, crianças
brincando ao lado de um rio de águas cristalinas.
Amor
Em lágrimas, Castrino a beijou na boca apaixonadamente. Segurou em
suas mãos, onde no dedo anular esquerdo já brilhava uma aliança com
várias pedras de ouro branco, como sinal do compromisso que havia
assumido havia dois anos. A prova de que era um amor eterno.
Helena fixou os olhos em Castrino, passou uma das mãos, já bem magra
por causa dos fortes efeitos da quimioterapia, no rosto do homem que
aprendeu a amar. Queria falar algumas palavras, mas a voz não saia dos
seus lábios. As dores pelo corpo eram terríveis. Pareciam formigas
mordendo as artérias do seu coração.
Justamente naquela semana, entraria com o pedido de divórcio para
nunca mais ficar ao lado de Marta. Já tinha esquematizado tudo. Grato.
Deixaria 50% da fortuna para ela, além de milionária pensão. Helena
mais uma vez olhou firme para Castrino e disse que lhe amava muito.
Adormeceu de repente. Logo estava ao lado de várias crianças e
passando os pés no rio de águas límpidas, livre da leucemia.
Trêmulas
Castrino, assustado olhou para Helena, chorando tentou acordá-la.
Mesmo após os terríveis efeitos da quimioterapia, o seu rosto voltou a
ficar lindo, como nos dias em que ambos se conheceram. Sua mão aos
poucos voltou à cama. Ele saiu do quarto, as pernas trêmulas e a voz
embargada. Na mesa, deixou um cheque de R$ 3 mil para as despesas da
família.
Retornou para casa. A cabeça fervendo igual panela de pressão. Na
mente, inúmeros pensamentos passavam. O que fazer? Procurar Marta?
Dizer tudo? Ou guardar silêncio, sobre a facada que havia preparado
por meio do pedido de divórcio que iria apresentar naquela semana?
Enfim, não sabia o que fazer.
Quando entrou no quarto, Marta estava no banheiro. Logo ela apareceu,
olhou bem firme no homem com quem estava casada havia 35 anos. Não
disse nenhuma frase. De uma das mãos, mirou a pistola 7.65, com
silenciador, e descarregou o pente em Castrino. De repente ele
aparece ao lado de Helena, com os pés no rio de águas límpidas....
Comentários: