Julio era apaixonado por mulheres orientais, sejam japonesas, chinesas, vietnamitas, coreanas, enfim o seu fetiche era os olhos puxados. Ao contrário de vários homens, fascinados pelas louras ou morenas jambo, o coração dele disparava, ao vê-las, quando passeava nas ruas do bairro da Liberdade, região central de São Paulo.
Passou grande parte dos seus 40 anos na busca para concretizar o sonho de casar com uma mulher que tivesse sangue do Oriente. O mais curioso é que no seu caminho só apareciam louras, dignas de capa de revista.
Não era bonito. Tinha narigão, cabelos crespos e poucos dentes na boca, além de trabalhar descarregando caminhão na região do Parque Dom Pedro II. Duro, só andava de ônibus. Para guardar dinheiro, trazia comida numa marmita de alumínio, como o pessoal fazia na década de 70.
Na escola, não conseguiu passar do então 4º Ano Primário. Aproveitou o porte físico avantajado dos seus 1,90 metro para ganhar o sustento como servente de pedreiro e trabalhador braçal em indústria metalúrgica. Até ir carregar saco de laranja e batatas no mercadão da Cantareira.
Nos raros momentos de folga ganhava uns trocados no “braço de ferro”. Nunca ninguém conseguiu derrotá-lo. Seus colegas o chamavam de Sansão. Numa sexta-feira de manhã, viu uma mulher nervosa por causa do pneu furado de seu carro. Gentilmente, ele assumiu o serviço. Logo solucionou o problema.
O que chamou a atenção de Mieko, uma advogada de 30 anos sem sorte no amor, é que Julio tirou os parafusos sem auxílio de chave. Com os dedos bem calejados de tanto carregar peso, fez um serviço perfeito. Só usou a chave de roda para concluir a tarefa.
Mieko foi para casa e de sua mente não saia a imagem daquele homem enorme, cheio de músculos. Ela, de 1,60 metro distribuídos por 50 quilos, passou a sonhar abraçada com aquela montanha de músculos. Resolveu procurá-lo. O encontrou em depósito próximo ao mercadão da Cantareira carregando dois sacos de 60 quilos, um em cada ombro.
O rosto suado, respiração ofegante, mas seus passos eram firmes para evitar qualquer escorregão. Mieko o chamou. Ele enxugou o rosto com a camiseta já surrada, deixando à mostra a barriga sarada por causa do pesado serviço de descarga de caminhão de transporte de frutas e legumes.
No meio da rua, o agarrou, segurou firme em suas mãos enormes, cheias de calos e na ponta dos pés conseguiu beijá-lo. Naquele momento Julio lembrou-se da japonesa que dias atrás havia trocado o pneu de seu carro. Pensou que fosse sonho.
De forma inesperada, o grande desejo de sua vida se concretizava: beijava e sentia o carinho de uma mulher oriental, algo que perseguia desde a adolescência. O fogo da paixão foi tão intenso, que Julio virou segurança e esposo de Mieko. Era a união da fome com a vontade de comer. Meses depois nasceu a filha do casal, batizada de Dalila....
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