Maguinólio era um empresário muito rico. Ganhava dinheiro facilmente. Conhecia na prática o significado da vida luxuosa. Tinha três jatinhos top de linha, inúmeros carros importados, três deles Ferrari (uma pintada na cor ouro), diversas fazendas, centenas de milhares de cabeça de gado, apartamentos de cobertura na Europa e Estados Unidos.
Detestava religiosos de qualquer credo. Sacrificava todo ano uma criança de menos de três anos ao deus Dagon, que já existia 3 mil anos antes do nascimento de Jesus Cristo, no Oriente Médio. Geralmente o sequestrador desta criança morria no dia seguinte para não virar testemunha do crime. Vivia cercado de mulheres lindas, a maioria ninfetas. A cada dia dormia com uma delas para saciar sua fome de sexo.
Na sua empresa, que ocupava um andar na badalada Avenida Brigadeiro Faria Lima, Zona Sul de SP, tinha hábito curioso: na festa de amigo secreto dos funcionários, sempre demitia por justa causa algum deles. A regra era mandar embora alguém que fosse bom. Deixava de lado os fofoqueiros, incompetentes e preguiçosos. Caçava os religiosos como tubarão em busca da presa que sangra na água.
Câncer
Naquele dezembro de 1994, seis meses após a chegada do Plano Real, escolheu a subchefe da tesouraria. Marilda trabalhava ali havia dez anos. O marido fazia quimioterapia para se livrar de um câncer no fígado, seus dois filhos adolescentes entraram no mundo das drogas e faltando cinco prestações para quitar o apartamento que comprara na Cidade Tiradentes, Zona Leste, não sobrava dinheiro para quitar a dívida.
Quando foi anunciada sua demissão, um infarto a derrubou no meio de seus colegas de trabalho. “Quanto teatro. Retire essa incompetente daqui para não tirar o brilho da nossa festa”, disse aos gritos. Marilda foi levada para o hospital Arthur de Saboya, no Jabaquara. “Gilda, você sabe qual é a regra? Demissão por justa causa, para não receber um centavo do meu bolso”, orientou a chefe do RH.
Após a festa, passou num motel com uma de suas ninfetas e seguiu para a mansão no Jardim Europa. Foi a primeira vez aos 65 anos que teve pesadelos e dos fortes. Durante quatro dias acordava com o corpo encharcado de suor, o pijama rasgado e caído fora da cama, às vezes até jogado dentro do banheiro.
Enxofre
No sexto dia, algo terrível aconteceu. Deitou-se às 11h30 da noite e logo apareceu num lugar tenebroso. Em um corredor escuro, fedendo carne podre, ouvia muitos gritos, barulho de correntes arrastando no chão e forte cheiro de enxofre. Logo alguém, trajando roupa escura, o agarrou pelo braço.
“Gostou de sua futura morada playboy, questionou um homem de voz grossa e ao mesmo tempo estridente. Olhou e viu que as suas unhas eram garras pontiagudas, iguais as de lobo. Ele o levou até próximo de um abismo, onde a gritaria era gigantesca. Parecia um estádio de futebol, mas de vozes clamando por misericórdia. “Tá vendo lá embaixo, o rio de fezes fervendo no ácido sulfúrico. Ali você vai nadar durante os teus primeiros anos de eternidade, quando aqui chegar”, disse a tenebrosa figura que o segurava.
“A gente pode fazer um acordo e tudo termina bem. Existe saída para tudo”, tentou negociar. Foi quando Maguinólio ouviu algo que lhe arrepiou todos os seus cabelos do corpo. “Cumpro ordem do homem que manda lá em cima e aqui embaixo. Você mexeu com alguém muito querida por ele e que nunca lhe desejou o mal”, disse a figura sinistra o erguendo como se fosse um boneco de pano e o jogando no chão.
Maldade
“Você tá dizendo daquela maluca que mandei embora, fanática por Deus”, questionou Maguinólio. “Não fale este nome aqui “, respondeu figura, muito nervosa, com as paredes daquele horroroso lugar tremendo, como se fosse um terremoto. “Eu mando no seu mundo, recebi autoridade para isso. Mas ele me obrigou, porque só tenho força e não poder, a trazer você aqui para lhe mandar um recado”, disse olhando no fundo dos olhos de Maguinólio.
“Você vai pagar tudo em dobro que aquela mulher tem direito, sem nenhum tipo de maldade. Como prova vou queimar teu braço, provando que você me visitou em vida. Junto vai te acompanhar o cheiro de enxofre, o meu perfume predileto”, o ameaçou o homem que em nenhum momento se identificou.
Acordou à meia-noite em ponto. Mas parecia que havia passado horas naquele terrível lugar. Olhou no braço e notou uma queimadura, que ardia bastante e o seu corpo fedia enxofre. Ligou apavorado para Gilda, gerente do RH e disse para calcular quanto Marilda deveria receber. Duas horas depois recebeu a resposta de que o valor seria de R$ 40 mil.
Impossível
“Faça um cheque de R$ 80 mil nominal. Quero isto sobre a minha mesa logo cedo. Do contrário sua cabeça vai rolar”, ordenou com a voz em pânico. De manhã passou no escritório, pegou o cheque, pediu informações sobre o estado de saúde da ex-funcionária e foi ao hospital onde ela estava internada havia sete dias.
Quando chegou ao Arthur de Saboya percebeu o quanto o pobre sofre com o estado da saúde pública no Brasil. Diversos pacientes eram atendidos nas macas espalhadas pelos corredores e os poucos funcionários faziam ginástica para prestar atendimento a todos eles. Entrou no quarto, cumprimentou Marilda e lhe entregou o cheque, com pedido de perdão.
Aquele dinheiro a ajudou quitar a dívida do apartamento, já com ordem de despejo expedida, também comprar medicamento para o seu esposo prosseguir no tratamento do câncer e providenciar uma clínica para tratamento dos seus dois filhos a se livrar das drogas. O restante, pôs no banco e ajudou alguns amigos carentes. Maguinólio deixou Dagon de lado e virou devoto de São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis.
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