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Na história das epidemias pelo mundo, é fato que elas contribuíram para mudanças de comportamento na economia e na forma de trabalhar, destituindo impérios e alterando modelos econômicos. A atual crise pandêmica que a sociedade tem vivido, segundo especialistas, deverá ditar um novo marco no mundo, com impactos diretamente nos aspectos culturais, sociais e sustentáveis, além da nova forma de trabalho, com modelos híbridos que se beneficiem da transformação digital adotada, compulsoriamente, pelas empresas.
Temas mais complexos, como formas de habitação e uso de transporte públicos também fazem parte das mudanças que podem ocorrer em um futuro próximo, levando gestores das cidades a trazerem soluções eficientes para se prevenir de uma nova pandemia.
Mas como será a sociedade global depois que tudo isso se normalizar? Embora ainda seja cedo para cravar, alguns grupos já discutem como determinados setores irão se comportar, principalmente o imobiliário. Esse tema faz parte do Projeto Moradia no mundo pós pandemia, que se trata de um think tank que reúne professores e intelectuais do Brasil e faculdades internacionais, para debater tendências na sociedade civil.
Uma pesquisa inédita foi encomendada pelo projeto junto ao Instituto de Pesquisas Sociais Políticas e Econômicas (IPESPE). "Em fevereiro deste ano, uma de nossas pesquisas identificou que 55% das pessoas aceitavam morar em imóveis de acordo com a fase de vida, mudando conforme o momento que vivia. Voltamos a campo para saber se este comportamento continuava após a pandemia e nos surpreendemos com o aumento de cinco pontos percentuais (60%), além de novos dados", explica Leão Serva, um dos idealizadores do projeto.
Enquanto mais de 70% dos entrevistados dizem gostar desta fase de home office, o número de pessoas interessadas em trabalhar próximo ao local de trabalho ou estudo, disparou de 38% para 57%. Um aumento de 50% em relação à pesquisa anterior. "Já vínhamos acompanhando, nos últimos 10 anos, que o brasileiro tem buscado meios alternativos de se locomover nas cidades, ao invés de usar transporte público. Essa nova informação, além de reforçar o que já sabíamos, também deixa um alerta para os gestores na confiança no uso do transporte público nas cidades. Além de maior qualidade de vida, trabalhando ou estudando perto de casa, as pessoas também querem mais segurança sanitária", analisa Serva.
O compromisso em morar em um local fixo por anos ou de aluguel por, no mínimo, 24 meses, parece estar enfraquecendo na sociedade. De acordo com o estudo, o desapego por um imóvel já atinge 62% do entrevistados e 63% dos já admitem morar de aluguel com contrato flexível ao invés de comprar um imóvel. Enquanto as gerações boomers (nascidos entre 40 e 60) e X (nascidos entre 60 e 80) prezavam pelo sonho do imóvel próprio, jovens entre 16 e 24 anos (82%) querem fugir da responsabilidade de financiar uma casa ou apartamento por até 30 anos.
"O estudo deixa evidente que a opção de moradia como serviço é um caminho sem volta para o setor imobiliário", conclui.
Multifamily Properties
Analisando pelo lado econômico e de investimento, o mercado imobiliário brasileiro, está desembarcando no país uma forma de investimento bastante comum nos EUA: multifamily properties.
Ao invés do que já acontece hoje, onde vários apartamentos têm um pequeno investidor ( locador), trata-se de um complexo de apartamentos ou casas, cujas unidades pertencem a uma espécie de holding.
A propriedade pode pertencer a um único indivíduo ou uma empresa e, por isso, seu controle é centralizado. Ou seja, todos os moradores do complexo são apenas inquilinos, com uma operação de locação podendo ser tocada como um negócio profissional, com o propósito de atrair, ainda mais, a captação de investidores.
Isso já acontece em shoppings centers, onde o "dono" decide as regras do empreendimento, sem necessitar de qualquer reunião condominial. A diferença é que enquanto os shoppings são focados em comércio, o multifamily property é destinado a residências.
A própria pesquisa já mostra como investidores podem estar de olho do mercado brasileiro: quando surge a intenção de prédio adequados de acordo com a fase da vida, a opção para famílias pequenas e casais surgem em 41% das citações, seguidos por perfis misturados (40%) e aposentados e idosos (24%).
Dentro da amostra no público sênior, quase 50% demonstra interesse neste tipo de empreendimento. "Apesar da alta demanda, para que este tipo de empreendimento ganhe força no Brasil, é necessário que o tipo de negócio vai ao encontro com o perfil do investidor. Ainda é um oceano azul ao analisar o potencial de lucro do investidor em criar imóveis personalizados e com subprodutos e marcas específicas dentro deste empreendimentos", prevê Serva.
Sobre Moradia no Mundo Pós Pandemia
O Projeto "Moradia no Mundo Pós Pandemia", resultou em uma websérie - com o mesmo nome - que está no ar desde a semana passada pelo YouTube. Divididos em cinco episódios, os vídeos trazem o ponto de vista de especialistas e intelectuais em relação ao futuro da habitação no Brasil.
Entre os convidados estão Gesner Oliveira, doutor em economia e professor da Fundação Getúlio Vargas, Pedro Rivera e Shawn Amsler, ambos professores da Columbia University, e Ben Ross Schneider, professor do MIT, além de Alexandre Frankel, CEO da Housi.
Além disso, os papers resultarão em um livro que explica como será morar no mundo sem casa.