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Segunda-feira, 10 de Agosto de 2026
King Pizzaria & Choperia
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Crônica

Os sonhos lindos viram realidade

Aproveitou o mote e pediu que ele a levasse a um jogo

Redação
Por Redação
Os sonhos lindos viram realidade
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Linda Andrews, engenheira eletrônica de uma famosa montadora de automóveis dos Estados Unidos, no início da década de 1990, veio trabalhar no Brasil. Na época, o então presidente Collor decretou abertura total do mercado de automóveis, cedendo espaço para outras empresas do setor trazer seus produtos ao País.

Loira, olhos azuis, pernas belas, cabelos longos, voz macia e muito bonita. Tinha 40 anos, mas o visual era de alguém de 20, com ar de ninfeta. Por onde passava, deixava os homens malucos de desejo. Sabia dominar perfeitamente a arte da sedução. Mesmo assim nunca casou. Preferiu continuar desfrutando de sua liberdade.

Desde a época em que morou nos Estados, adquiriu o hábito de dormir em motéis, algo comum entre a maioria dos norte-americanos. Entre eles, não existe a conotação de usar motéis para fazer sexo, como ainda ocorre no Brasil.

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Amor

Quando chegou, em pleno Verão, temperatura atingindo os 32ºC em vários dias da semana, logo abusou de roupas decotadas e saias curtas, deixando à mostra as pernas bem torneadas, sem nenhuma marca das indesejadas varizes.

Não demorou e logo o público masculino da filial da montadora, presente no Brasil há décadas, passou a desejá-la. Os convites chegavam de várias frentes. Restava saber quem ganharia o grande prêmio de ter Linda ao lado, em momentos inesquecíveis de amor.

Acompanhava de perto os projetos envolvendo a parte eletrônica dos veículos. Expert em cálculos, não usava maquininha para as contas. Em segundos resolvia equações matemáticas que deixaria muitos vestibulandos da Fuvest de cabelos arrepiados. Um erro poderia arruinar um projeto e provocar prejuízos à empresa.

Calor

Após um ano de Brasil se apaixonou pelo time do Corinthians. Na visão dela, descontadas as proporções, tinha o mesmo calor e entusiasmo do Chicago Bulls, a máquina de jogar basquete dos norte-americanos.

 

Quando podia, saia do bairro da Saúde, onde resolveu morar numa rua bem calma, próximo à Aclimação, Zona Sul de SP, para assistir aos jogos no Pacaembu. Não tinha medo. Durante anos treinou caratê e kung-fu. Sabia como se defender e bater em alguém, quando fosse preciso.

Apesar dos gracejos, nenhum colega de trabalho mexeu com o seu coração. Os tratava educadamente, porém sem abrir brechas para brincadeira de cunho sexual. Não comentava com ninguém a respeito de sua vida pessoal. Tudo era segredo.

Vietnã

Lembra da infância, dos discursos do líder negro e pacifista Martin Luther King. Chegou, inclusive, acompanhar algumas de suas famosas passeatas, perto do final da década de 1960, quando ele passou a criticar a participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Linda perdeu um irmão neste conflito armado.

No imenso pátio do estacionamento às vezes encontrava com um negro, de cabelos baixos, igual corte militar e olhos verdes. Lembrava o seu ídolo Smokey Robinson. Adorava suas canções, principalmente “Cruisin”, que virou trilha sonora de novela das 8h na Rede Globo, em 1978.

Elias era o seu nome. Trabalhava na ferramentaria. Havia estudado no Senai e, por meio de indicação de um amigo, entrou nesta montadora de automóveis, onde já estava há mais de 10 anos. Apolítico, não participou das famosas greves que tornou o ABC paulista famoso no sindicalismo mundial.

Ilusão

Por ironia do destino, durante a semana sempre Linda o encontrava . Elias olhava rápido e a passos rápidos caminhava para o seu departamento. Aos 38 anos sabia onde amarrava o seu burro. Na sua cabeça, nenhuma funcionária graduada, transferida da matriz, nos Estados Unidos, iria dar atenção a empregado brasileiro e ainda negro!

Num belo dia Linda o surpreendeu no horário da saída. Em um português misturado com espanhol lhe disse que o seu nome era de profeta. Linda havia crescido num lar evangélico, mantinha na memória a história de Elias, o homem que orou e choveu fogo do céu.

Espantado, Elias olhou para Linda e sorriu. Encarou como piada. Daquele dia em diante, a imagem daquele negro, de corpo atlético, sem barba, de pernas e braços longos, fixou em sua mente. Quando descia ao Parque da Aclimação para caminhar, não parava de pensar naquele colega de trabalho.

Timão

Percebeu que no carro de Elias tinha um adesivo do Corinthians. Aproveitou o mote e pediu que ele a levasse a um jogo. Desconfiado, o convite foi aceito. Num final de semana, os dois estavam no Morumbi, em uma partida que o Timão goleou o São Paulo.

Era época do atacante Viola, que de morador numa favela da Zona Norte de São Paulo, chegou à seleção brasileira que iria conquistar o tetracampeonato nos Estados Unidos, em 1994. A trouxe até em casa no bairro da Saúde. Recebeu um convite para tomar café.

Quando entrou, o quadro de Luther King na parede lhe chamou a atenção. Perto da estante, o disco de vinil de Marvin Gaye revelou que Linda gostava de negros e tinha bom gosto.  Cauteloso não avançou o sinal. Apenas agradeceu a gentileza de Linda.

Opala

Foi para a casa, no distante bairro de Bonsucesso, em Guarulhos, onde poucas ruas tinham asfalto. A dele era de terra. Quando chovia, o Opala, adquirido em várias prestações, não conseguia entrar. Mesmo assim gostou da companhia de Linda. Nos ouvidos, sentiu a suavidade de sua voz.

Logo o relacionamento se estreitou. Filho único tinha muito amor pelos pais. Procurava não magoá-los. Dispensou várias pretendentes. A maioria interessada apenas numa vida mansa, que o bom salário de ferramenteiro proporcionava nas montadoras de automóveis. Apaixonado, apresentou Linda aos seus pais. A beleza dela chamou a atenção dos velhos.

 Não demorou em sair o casamento. Porém, ficou pensativo. Ela branca e loira, bonita, ganhando bem, se casando com um negro, residente na periferia. Perto de se unirem na igreja, Linda lembrou a Elias que ela, igual Luther King, teve um sonho de que negros e brancos andariam juntos. Logo veio o primeiro filho, Jonatas, que adorava basquete e pediu para treinar no Corinthians....

FONTE/CRÉDITOS: Aristóteles Ambrósio
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