Fritz era apaixonado por mulheres brasileiras, principalmente negras, de pele bem escura, como as existentes em diversas regiões da África. Como geólogo trabalhou em vários países. Até vir ao Brasil e ficar impactado com o charme e beleza das brasileiras.
Alemão de Munique, recusou inúmeros casamentos no seu país. Dizia não existir química entre ele e alguém de olhos azuis, cabelos loiros, pele branca e até mesmo um corpo típico de atriz de Hollywood. Por conhecer pessoas de perfis diferentes, tinha respaldo para falar do assunto.
Ele era o típico alemão que chamava a atenção de qualquer mulher. Alto, cabelos loiros nos ombros, olhos cor de cinza, porte atlético, herança da época que jogou nas equipes de base da máquina de futebol do Bayer de Munique, na década de 70. A carreira só não foi adiante por causa da pressão dos pais.
Bossa Nova
Fritz falava vários idiomas, principalmente mandarim, que poucas pessoas dominam fora da China, além do hebraico, russo, grego, latim e diversos dialetos africanos. Também não fazia feio quando pegava instrumentos de corda, onde adorava tocar Bossa Nova e Samba de raiz.
Admirador do trabalho do geólogo brasileiro Milton Santos, veio a São Paulo e foi conhecê-lo na USP, onde lecionou alguns anos. Logo a amizade se solidificou. Acatou os conselhos do mestre a respeito dos vários países existentes no Brasil e colocou os pés na estrada para uma tese de mestrado.
Nesta andança chegou ao Piauí. Na cidade de Teresina, numa tarde de sábado foi a um bar e logo som de um grupo musical lhe chamou atenção. Os rapazes, fãs do grupo Candeias, tocavam a bela “Teresina”, com direito a solo de flauta e melodia para massagear os ouvidos dos amantes do bom gosto.
Festival
Logo soube que a canção havia participado de um festival em 1980, conquistando o primeiro lugar. Porém o que lhe chamou atenção, também, foi a garçonete que lhe serviu um delicioso suco de umbu cajá e suculenta porção de carne de sol desfiada e frita na manteiga de garrafa.
Por ironia ou sacanagem, todos os fregueses a chamavam de “Branquinha”. Cristina era bem negra, os cabelos supercrespos, mas de olhos castanhos claros e um corpo para derreter qualquer coração. Melhor: aos 25 anos nunca havia namorado ninguém. Cuidava dos pais, ambos já idosos. Os tratava iguais aos reis.
Fritz retornou ao barzinho diversas vezes. Só aceitava ser atendido por Cristina. As mulheres também passaram a assediá-lo, por causa de seus traços nórdicos eram impossível de não se perceber que ele estava no local. Educadamente recusava todo tipo de cantada. O seu foco era Cristina.
Violão
Não demorou e passou a sonhar com ela. Quando acordava estava extasiado. Aos 45 anos se comportava como adolescente na primeira paixão. Resolveu deixar a tese de mestrado de lado e partiu para cima de Cristina. Em um domingo à tarde foi ao bar e pediu que a levasse em sua casa. Ela se assustou. Nunca havia saído com nenhum homem.
Implorou. Aproximou-se do grupo musical e pediu para tocar uma música. Com o violão nas mãos solou o clássico “Eu sei que vou te amar”, numa apresentação digna dos grandes bluesman de Chicago. Ofereceu a canção para Cristina, dizendo que ela era o cartão postal do Brasil.
Após muita insistência, Fritz conseguiu ir até a casa dela, na periferia de Teresina, num bairro simples, de ruas pavimentadas com pedras. Logo chamou atenção, quando desceu da picape Hilux da Toyota. Não perdeu tempo. Tirou presentes e entregou aos pais da mulher que estava loucamente apaixonado.
Escravidão
A conversa durou a tarde de sábado. Hilda e Flávio, descendentes de escravos, só ouviram as opiniões de Fritz. Neste período, comeu muitos bolinhos de chuvas, bebeu bastante garapa e conheceu diversas curiosidades a respeito da escravidão negra no Brasil. Observou que Cristina tratava os velhos educadamente. Não alterava a voz ou mudava de fisionomia.
Flávio olhou bem no rosto de Fritz e lhe disse o quanto seria difícil a união de sua filha Cristina com ele. Alertou que o racismo brasileiro é sutil, não é igual ao norte-americano ou europeu. Aqui as pessoas fingem gostar de um casal mesclado, mas pelas costas só desejam o pior. Logo dirão que é interesse um casamento desse.
Fritz aceitou o desafio. A união dos dois impactou o bairro e os fregueses do bar onde Cristina trabalhava. O seu amado comprou o estabelecimento. Incrementou o grupo musical. Introduziu alguns pratos da culinária alemã e a geologia perdeu para sempre um dedicado profissional. Quando se olha para o casal, é possível perceber porque o café se combina tão bem com o leite....
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