Gilson tinha três amores depois de sua família: passarinhos, livros e partituras de músicas clássicas e Bossa Nova. Quando estava em casa, parte do dia era dedicada a cuidar dos pássaros que estavam alojados nas diversas gaiolas espalhadas pela casa de imenso quintal no bairro do Ipiranga, Zona Sul de SP.
Dizia às suas três filhas: Carol, 19 anos, Silvia, 21 e Roseli, 23; que mesmo após sua morte, este acervo deveria receber cuidados. Não gostaria que tudo isto acabasse no lixo ou nas mãos de algum aventureiro, sem nenhum cuidado.
Enquanto não chegava o dia final, Gilson continuava trabalhando em novos projetos de arquitetura. Mesmo perto dos 70 anos, as empresas o procuravam. Afinal de contas, era imenso o seu talento.
Sintonia
Tinha muita sensibilidade. Os imóveis que desenhava na prancheta (tinha horror a computador) se tornavam grandes obras de artes, quando se tornavam realidade nas mãos das construtoras. Sabia como poucos interpretar os anseios dos futuros moradores.
“Ninguém é sardinha para viver preso dentro de espaço minúsculo”, dizia, quando almoçava uma deliciosa feijoada em bar perto de sua casa. Na visão de Gilson, edifício ou conjunto habitacional precisava primar pela beleza externa e interna.
Por causa deste bom gosto estava no mercado há 50 anos. Conhecia a fundo a história da arquitetura brasileira. Para ficar em sintonia com o mercado, gostava de viajar ao Exterior. Em vez de visitar as atrações turísticas locais, observava a arquitetura do lugar.
Reciclável
Neste pique conseguiu proporcionar bom padrão de vida para suas três filhas, após perder a esposa num acidente de carro. Manteve a bola. Não se casou. Contratou duas babás que ajudou criar as meninas, quando a mais velha tinha 12 anos. Tudo correu bem.
Em uma tarde ensolarada de domingo, sentado na varanda de casa, adormeceu para sempre. Passados alguns meses após a morte de Gilson, as três meninas começaram a soltar todos os passarinhos das gaiolas. Os livros, alguns raros, foram entregues ao caminhão de lixo reciclável.
Os lotes de partituras, algumas com dedicatórias de seus autores, viraram tapetes para os cães da vizinhança fazerem xixi e coco. Infelizmente o que se guarda com tanto carinho em vida, após a morte a insensibilidade os relega à lata de lixo, sem direito a qualquer crítica. Afinal de contas, como diz a Bíblia, “os mortos não louvam a Deus”....