Paixão multiplicada por mil. Assim era o que Jordão sentia por Cintia, sua vizinha de bairro e amiga de escola desde o pré-primário. Ambos cresceram juntos ouvindo Raul Seixas, Walter Franco, Os Mutantes e Gilberto Gil, após o retorno do exílio na Europa.
Ele tinha razão em gostar tanto, daquela jovem que deixava todos de queixo caído quando passava na rua para ir comprar pão na mercearia do Joca. Alguns até diziam que a canção “Sá Marina”, regravada por Wilson Simonal em 1968, teria Cintia como inspiração.
Quanto à beleza daquela jovem, filha caçula dos lavradores Julio e Ana, fugitivos da fome do Nordeste, adotados pelo bairro da Vila Maria, no final da década de 1950, ninguém poderia falar nada contra. Cintia era linda demais.
Cescem
Aos 22 anos, o corpo mignon e esguio, cabelos encaracolados, olhos castanhos meio cor de mel, pele branca levemente bronzeada, voz macia e andar cativante, como se estivesse pisando nas nuvens. O sorriso expulsava a tristeza de qualquer infeliz que a encontrasse pela frente.
Após concluir o Colegial (atual Ensino Médio) os dois prestaram o Cescem (usado na década de 1970 no vestibular para os candidatos aos cursos de Medicina) e passaram. A dupla logo colocou os pés nas famosas alamedas da USP (Universidade de São Paulo).
A mesma loucura que acometia os meninos da Vila Maria, perto da Avenida Guilherme Cotching, onde ambos moravam numa travessa, começou a ocorrer na USP. Até mesmo alguns professores não disfarçavam o olhar de desejo em relação à Cintia.
Amizade
Ela considerava Jordão como irmão. O agarrava, beijava o rosto e pedia que a carregasse no colo, em algumas vezes. O mais curioso é que nunca o grande desejo de tê-la como namorada veio à tona. Jordão tinha medo de receber um não e perder a amizade de sua grande amiga.
Toda a noite sonhava com Cintia. Acordava suado. Chorava só de pensar que um dia ela se casaria com outro. Ensaiava confessar o seu amor, porém quando estava diante dela, perdia a coragem. Percebeu que o presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina entrou na briga para namorá-la.
Narciso tinha dinheiro, morava nos Jardins e falava muito bem. Numa tarde, olhou para Cintia e temendo pelo pior, segurou em suas mãos e confessou que a amava desde a infância. Ela ouviu, olhou bem no fundo dos olhos de Jordão e disse: “eu também”! Esperei todo esse tempo por sua iniciativa. Às vezes o medo de perder, funciona como combustível da coragem....
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