São Paulo de Fato

O gosto da aposentadoria

Ligou a sirene e foi em busca do trio

Arquivo

Jonas estava a um mês de se aposentar na PM. Sargento linha dura, mas com jogo de cintura, sabia como obter informação da malandragem. Não utilizava violência física para coagir qualquer bandido. Apenas a inteligência. Geralmente conseguia bons resultados.

Desde o dia em que entrou na Polícia Militar de SP não se esqueceu do lembrete de confiar sempre na arma, em qualquer situação. Ele sabia a influência do dinheiro sobre a personalidade das pessoas. Os inúmeros casos nas mãos da corregedoria justificativa o alerta.

Dizia aos colegas de farda que após a aposentadoria aproveitaria o restante dos seus 53 anos para curtir a família. Viajar e dedicar tempo aos filhos que praticamente não acompanhou o crescimento, por causa da dupla jornada de trabalho, quando trabalhava nas folgas.

Doce

Não defendia grupo de extermínio, nem muito menos corrupção. O válido, na opinião de Jonas, era ganhar dinheiro sem a mancha do crime. Além, de exímio atirador, era faixa preta em caratê e judô. Tinha ótimo condicionamento físico. Aguentava trabalhar sob pressão.

No último dia de serviço nas ruas e depois sentir o gosto doce da aposentadoria, Jonas saiu para o patrulhamento. Ao circular pela Zona Leste de SP, próximo da estação Arthur Alvim, flagrou três homens assaltando um carro forte.

Ligou a sirene e foi em busca do trio. O motorista dos bandidos era bom de volante. Fazendo zigue zague na Radial Leste, o carro chegou à Avenida Águia de Haia. O para brisa da viatura acabou destruído por uma rachada de submetralhadora.

Presos

Os criminosos descem e entram num beco. De noite, o local tinha visibilidade reduzida. Jonas entrou e pediu cobertura. O motorista ficou ao volante da Blazer da Força Tática, os outros três Pms e o sargento Jonas abraçaram a causa de pegar o trio de assaltantes.

Ao percorrer alguns metros na viela, travessa da Avenida Águia de Haia, várias rajadas de tiros de submetralhadora foram disparadas contra Jonas e seus Pms. A regra era defender a vida, o reforço chegou rápido. O local cercado. Minutos depois os bandidos estavam presos.

Jonas sentia os olhos ficarem turvo. Não conseguia enxergar direito o que estava diante dele. Percebeu dois furos no colete, próximo da barriga. Chegou até a viatura, com a farda suja de sangue. Olhou para o motorista e disse apenas que iria desfrutar da sonhada aposentadoria. Adormeceu e de repente passou a sentir a doce sensação de ouvir um coral de crianças cantando num jardim repleto de rosas brancas....

Fonte

Aristóteles Ambrósio
  • Compartilhe
  • Compartilhar no Facebook
  • Compartilhar no Google Plus
  • Compartilhar no Twitter
  • Compartilhar no WhatsApp

O gosto da aposentadoria

Aristóteles Ambrósio

Jonas estava a um mês de se aposentar na PM. Sargento linha dura, mas com jogo de cintura, sabia como obter informação da malandragem. Não utilizava violência física para coagir qualquer bandido. Apenas a inteligência. Geralmente conseguia bons resultados.

Desde o dia em que entrou na Polícia Militar de SP não se esqueceu do lembrete de confiar sempre na arma, em qualquer situação. Ele sabia a influência do dinheiro sobre a personalidade das pessoas. Os inúmeros casos nas mãos da corregedoria justificativa o alerta.

Dizia aos colegas de farda que após a aposentadoria aproveitaria o restante dos seus 53 anos para curtir a família. Viajar e dedicar tempo aos filhos que praticamente não acompanhou o crescimento, por causa da dupla jornada de trabalho, quando trabalhava nas folgas.

Doce

Não defendia grupo de extermínio, nem muito menos corrupção. O válido, na opinião de Jonas, era ganhar dinheiro sem a mancha do crime. Além, de exímio atirador, era faixa preta em caratê e judô. Tinha ótimo condicionamento físico. Aguentava trabalhar sob pressão.

No último dia de serviço nas ruas e depois sentir o gosto doce da aposentadoria, Jonas saiu para o patrulhamento. Ao circular pela Zona Leste de SP, próximo da estação Arthur Alvim, flagrou três homens assaltando um carro forte.

Ligou a sirene e foi em busca do trio. O motorista dos bandidos era bom de volante. Fazendo zigue zague na Radial Leste, o carro chegou à Avenida Águia de Haia. O para brisa da viatura acabou destruído por uma rachada de submetralhadora.

Presos

Os criminosos descem e entram num beco. De noite, o local tinha visibilidade reduzida. Jonas entrou e pediu cobertura. O motorista ficou ao volante da Blazer da Força Tática, os outros três Pms e o sargento Jonas abraçaram a causa de pegar o trio de assaltantes.

Ao percorrer alguns metros na viela, travessa da Avenida Águia de Haia, várias rajadas de tiros de submetralhadora foram disparadas contra Jonas e seus Pms. A regra era defender a vida, o reforço chegou rápido. O local cercado. Minutos depois os bandidos estavam presos.

Jonas sentia os olhos ficarem turvo. Não conseguia enxergar direito o que estava diante dele. Percebeu dois furos no colete, próximo da barriga. Chegou até a viatura, com a farda suja de sangue. Olhou para o motorista e disse apenas que iria desfrutar da sonhada aposentadoria. Adormeceu e de repente passou a sentir a doce sensação de ouvir um coral de crianças cantando num jardim repleto de rosas brancas....