Eu tenho certeza que o catedrático do Samba Paulista Germano Mathias chegou ao céu com um tamborim na mão e cantando as estrofes deste samba:
No céu há de haver um lugar
Para a gente sambar
Quando a vida chegar ao fim
São Pedro, São Pedro
Eu ei de gritar
Abre a porta que eu vim
Com o meu tamborim
E quando eu lá chegar
Vai haver carnaval, sensacional
A turma vai gostar
Porque o samba no fundo, é do outro mundo.
Ele subiu ontem pela manhã aos 88 anos de vida terrestre deixando aqui neste confinamento um legado de dezenas de sambas num estilo sincopado que somente ele era capaz de fazer.
Esta opinião acima foi colocada pelo Mestre do partido alto Bezerra da Silva quando participou de uma edição do programa Ensaio da TV Cultura que eu assisti há muitos anos atrás.
Germano Mathias é dos anos 50 da gafieira paulistana e ao lado de Demonios da Garoa representavam a síntese do Samba de São Paulo, que ao contrário do que se pensa, tem seu DNA totalmente diferente do Samba do Rio de Janeiro trazido pra cá pelo Grupo Fundo de Quintal e que se consolidou em todas as esquinas e quebradas desta cidade até os dias atuais.
O samba de São Paulo vem do canto dos negros nas colheitas de cana de açúcar e lavouras de café do interior paulista e chega por aqui ocupando musicalmente seus ais em lugares como Pirapora do Bom Jesus, Entreposto do Largo da Banana na Barra Funda, as margens do Córrego Saracura no Bexiga e a Praça da Sé com os engraxates batucando em latinhas de graxa e caixas de fósforos num tempo onde fazer samba era coisa de vadio e logo era dispersado pela polícia. É assim que nos ensina o Mestre Seu Carlão da Peruche.
E Germano Mathias é deste tempo. Foi na região central que ele foi aprendendo e criando seu ouvido e sensibilidade musical.
Em 1955 ele participa de um programa de calouros e seu jeito sincopado e humorado de cantar o leva ao estrelato com gravações de discos, além de participar como ator no cinema e televisão.
Anos depois, caiu no ostracismo junto com o samba que perdera seu espaço para outros ritmos.
E o destino o levou numa Quarta-feira de Cinzas de um Carnaval - 2023.
Como diria Bezerra da Silva:
- O Samba sincopado com o andamento que ele produz, ninguém sabe fazer...Nem eu, Dicró ou Moreira da Silva.
- Isso é coisa de somente do Germano Mathias.
Texto: Walmir Bardo
Comentários: