Corria o início da década de 1970 e a maioria dos trabalhadores levava marmita para esquentar no serviço. Ainda não existia o tíquete que poderia servir de moeda para comer lanche ou mesmo almoçar nos locais credenciados.
Martinho, sujeito ambicioso e aético, resolveu investir o dinheiro que havia guardado na compra de um restaurante na região central de São Paulo. Seus funcionários recebiam orientação de evitar qualquer desperdício.
Prato que voltasse à cozinha ainda cheio, cujo freguês pouco beliscou, acabava reaproveitado. Na sua ótica, jamais uma pequena bandeja de arroz teria o lixo como destino, porque alguém só pegou poucas colheres. Entraria em outro prato.
Limpeza
Naquela época ninguém visitava as cozinhas deste tipo de estabelecimento. Portanto, ali era terra de ninguém. Nunca o consumidor iria ver se naquele lugar as regras da higiene imperavam. O que valia era o verniz falso da limpeza.
Aliás, neste tipo de quesito, o restaurante de Martinho ganhava disparado na imundície. Nem um chiqueiro conseguia ultrapassá-lo. Para disfarçar o mau cheiro de carnes de aves, porco ou boi, despejava grande quantidade de perfume na cozinha com desinfetante.
Quando alguém reclamava do sabor estranho de algum pedaço de bife ou coxa de frango. Ele mesmo comia o que estava naquele prato e dizia, que não existiria risco nenhum à saúde. Do contrário, não colocaria aquela carne em sua boca.
Porco
Argumentava que o paulistano reclamava de tudo. Para Martinho, tudo não passava de frescura. De pessoas que não viveram no sertão nordestino, onde as peles de porco ficavam dependuradas no varal para pegar sol. Neste caso, as moscas faziam morada em cima delas, e segundo ele, ninguém adoecia.
Certo dia, Jonas, fiscal da Sunab, que visitava estabelecimentos comerciais para verificar se respeitavam à lei em termos de higiene. Pediu para ir ao banheiro e acabou impedido. Martinho disse que o local estava quebrado. Jonas sacou de sua carteira funcional e se dirigiu à cozinha. Tomou um susto ao se deparar com tanta sujeira. Viu moscas pousando em diversos alimentos. O chão fedia.
Resolveu multar e interditar o restaurante. Não deixou chance para Martinho retrucar. Com ânsia de vômito o chamou de porco e irresponsável. Naquele momento Martinho soube que ninguém é totalmente esperto para enganar todos em todo tempo. Mudou de ramo e foi trabalhar de desentupidor de fossa.
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