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Domingo, 09 de Agosto de 2026
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Crônica

Nem tudo o dinheiro compra

Marshall tirava proveito do rio de dinheiro que facilmente chegava em suas mãos

Redação
Por Redação
Nem tudo o dinheiro compra
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Marshall trabalhou 30 anos como contador. Conhecia os atalhos para deixar limpo o dinheiro sujo igual esgoto. Para acelerar o seu conhecimento morou na Europa. Ali manteve contatos com pessoas especialistas neste tipo de crime. O resultado disso era o ótimo padrão de vida que sua família desfrutava.

Políticos, empresários desonestos, artistas e mafiosos o procuravam para que ele fizesse a alquimia de pegar algo que fora ganho de forma desonesta e transformasse tudo em algo bom. Após as eleições, os famosos restos de campanhas passavam pelas suas mãos, que depois decolavam rumo aos paraísos fiscais.

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Porém sua fortuna não seduzia a mãe. A lavadeira e passadeira de roupas, Clotilde. Mulher honesta e muito religiosa. Nunca se levantava ou deitava sem agradecer a Deus. Jamais fazia algo que ferisse os bons costumes. Marshall quando a visitava, não podia entrar na pequena garagem da casa, com o seu carro importado.

Maldito

“Não admito que você coloque aqui dentro do meu terreno, os frutos que satanás lhe emprestou”, dizia sem qualquer abertura de diálogo. Também recusava qualquer ajuda financeira. “Jamais vou sujar as minhas mãos com este teu dinheiro maldito”, esbravejava.

Entre os dois não havia acordo. Marshall tirava proveito do rio de dinheiro que facilmente chegava em suas mãos. Tinha clientes em toda a América Latina, Caribe, Oriente Médio e Europa, além dos ditadores de plantão na África, ávidos em colocar no Exterior o dinheiro ganho em cima da miséria da população.

Sua esposa Clara não reclamava de nada. Tinha vida de princesa e realizados todos os sonhos de consumo. Comprava roupas de requintadas grifes, perfumes caros e calçados que só milionários usam.  Interesseira, o que importava era o conforto proporcionado por Marshall. O resto não lhe dizia respeito.

Rotina

O filho caçula do casal, Eric, teve um raro câncer nos ossos descoberto num exame de rotina. Marshall procurou os melhores médicos que o dinheiro poderia pagar. Nem na Europa ou Estados Unidos encontrou solução. Logo, o desespero tomou conta dele e de sua esposa.

O menino sentia dores terríveis. Não conseguia dormir sem tomar sedativo. Bateu em diversas portas espirituais, mas não encontrava solução. Logo a notícia chegou aos ouvidos da avó Clotilde. Pediu que ela lhe ajudasse. Recebeu uma resposta seca: “mas o seu dinheiro não é a solução para tudo?”, questionou.

A situação piorou. Marshal não tinha calma para continuar trabalhando. O nervosismo passou a lhe acompanhar com frequência. Para complicar, um médico o alertou que o pior estava por vir.  Foi o chute na barraca de sua vida. Pegou o carro e tentou trazer sua mãe até em casa.

Sujo

“Não entro neste carro imundo, que o dinheiro das trevas ajudou comprar. Tenho vergonha na cara. Quando morrer, não levarei dinheiro para o outro lado da vida”, respondeu Clotilde. Após muito custo, ela o visitou. Chegou a pé, depois de 8 horas de viagem de ônibus de Presidente Epitácio até São Paulo.

Quando o chegou, um porteiro a barrou. “Minha senhora, empregado não entra por este portal. Só pelos fundos”, disse o rapaz que desconhecia que Clotilde fosse a mãe de Marshall. “Você pode telefonar para o Marcelo. Diga que a mãe dele está aqui”, respondeu. Com sarcasmo, o segurança atendeu ao pedido.

“Seu Marshall, tem uma senhora aqui dizendo que é sua mãe. Mandou-a subir”, perguntou. Logo, Marshall veio e a levou para dentro da residência, digna de magnatas ou estrelas de Hollywood. No trajeto não conversaram. Recusou tomar água ou café. Foi direto ver o neto doente.

 Pálido

No quarto, onde funcionava uma requintada UTI, ela olhou para os enfermeiros e médicos contratados. Pediu que todos saíssem. Olhou para o menino, pálido e magro. Ajoelhou-se ao lado da cama, colocou as mãos sobre o corpo do menino e orou. Do lado de fora, era possível ouvir suas palavras.

“Deus este menino é inocente. Não tem culpa dos erros cometidos pelo pai. Que sua misericórdia e sua vontade prevaleçam. Ai dos Céus olhe para o meu neto com carinho. O retire deste sofrimento”, exclamou soluçando. Levantou-se para ir embora.

Os médicos e enfermeiros entraram rapidamente por causa do barulho das máquinas que o mantinha vivo. Ninguém compreendia o que aconteceu após aquela oração. Horas depois, o pequeno Victor pediu água. “Mãe, um homem de branco, com olhos igual fogo me abraçou”, disse o menino. Meses depois Mashall se desfez de tudo para viver ao lado da velha Clotilde. Passou até a andar de ônibus....

FONTE/CRÉDITOS: Aristóteles Ambrósio
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