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Sabado, 15 de Agosto de 2026
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Variedades

Jô, Silveira Sampaio, o CIB e nós

Dramaturgo e humorista, Silveira Sampaio,

Henrique Veltman,
Por Henrique Veltman,
Jô, Silveira Sampaio, o CIB e nós
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Em 1937, durante a ditadura do ‘Estado novo’, a sociedade sionista Bene-Herzl, foi forçada a mudar seu nome para “Centro Israelita Brasileiro”. 
Misto de sinagoga e clube, foi lá que os hebreus dançaram no seu baile de formatura.
Foi lá que Jô Soares deslumbrou a zona sul do Rio, com o seu deduche e começou a sua vida profissional. Silveira Sampaio estava na platéia e, depois do show, convidou o Jô a trabalhar no seu programa na TV Rio, o SS Show, logo rebatizado como Bate-Papo com Silveira Sampaio..
Dramaturgo e humorista,  Silveira Sampaio, 
fazia dois programas, o primeiro talkshow da história da TV, o SS Show, e o Bate-papo com Silveira Sampaio, no qual ele, sozinho, diante de um telefone, mantinha conversas de cunho cômico com os políticos da época. Foi na produção desse  programa que Jô começou a brilhar, primeiro como repórter internacional.
O programa terminava com o antológico “Carlos, meu filho, não faça isso...”, cada vez com uma nova referência aos atos do então governador Carlos Lacerda. Claro, o sucesso de Carlos, meu filho... irritou o governador e ex-colega de faculdade de Silveira Sampaio. Um certo dia, quando ele e Jô  chegaram um dia para trabalhar, o estúdio estava ocupado pela polícia.
Voltando ao Jô - José Eugênio Soares nasceu no Rio de Janeiro, em 16 de janeiro de 1938, filho do empresário paraibano Orlando Heitor Soares e de Mercedes Leal Soares. Na infância, morou no anexo do hotel Copacabana Palace; aos 12 anos, mudou-se para a Europa, onde viveu por cinco anos. Quando estudava na Suíça, nasceu sua paixão pelas artes cênicas. “Eu pensei que ia seguir a carreira diplomática. Mas sempre ia ao teatro, sempre ia assistir a shows, ia para a coxia ver como era. E já inventava números de sátira do cinema americano; fazia a dança com os sapatinhos que eu calçava nos dedos, o deduche”. 
Em 1958, voltou com a família para o Rio de Janeiro. “E imediatamente comecei a frequentar a turma do teatro, a mostrar meus números, e a coisa engrenou quase que naturalmente”. Depois da apresentação no show dos jovens no CIB,  e da contratação por Silveira Sampaio, a carreira de Jô decolou. Em 1959 fez o papel de um americano na chanchada O Homem do Sputnik, de Carlos Manga, estrelada por Oscarito. Nessa altura, passou a escrever  para o TV Mistério, programa da TV Continental, dirigido por Adolfo Celli, com Paulo Autran e Tônía Carrero no elenco. Meu irmão, nessa altura do campeonato, produzia vários programas para a TV 9, inclusive o seriado dos Três Mosqueteiros, que eu adaptava. Jô também chegou a encarnar o Frei Tuck no seriado Robin Hood, já na TV Tupi.  Convidado por Silveira Sampaio, Jô foi para São Paulo em 1960, e começou a trabalhar na TV Record: escrevendo o Simonetti Show e atuando em programas como o La Reuve Chic, Jô Show, Quadra de Azes (ao lado de Zilda Cardoso, Darlene Everson e Cauby Peixoto), Show do Dia 7 e Você é o Detetive. Jô Soares também interpretou o mordomo do seriado A Família Trapo. “Acho que foi a primeira sitcom que se fez. Era gravado como se fosse ao vivo, realmente, no Teatro Record, na Rua da Consolação. E tinha uma plateia maravilhosa, que ia assistir como se fosse ao teatro”. Ele também escrevia o humorístico, em parceria com Carlos Alberto de Nóbrega. Um dos maiores sucessos da televisão na época, A Família Trapo tinha um elenco espetacular,  Otelo Zeloni, Renata Fronzi, Ronald Golias, Cidinha Campos e Renato Corte Real. Com Renato, Jô Soares protagonizou, a partir de 1970, o Faça Humor, Não Faça a Guerra, na sua estreia na Globo. A dupla também escrevia o programa, ao lado de  Max Nunes, Geraldo Alves, Hugo Bidet e Haroldo Barbosa. Nele, interpretou tipos como Norminha e Padre Thomas. “Criávamos uma média de 20 e tantos personagens por ano. Quando terminou o último programa, havia mais de 260 personagens criados”.
Uma Aventura aos 40 - Fui ao cinema sem me preocupar em saber qual era o filme. Eu tinha meus onze ou doze anos. O Bandeirinha, Cine Bandeira, era a nossa opção, minha e do Fraim,  para “matar o tempo” - até porque não pagavamos para entrar, o bilheteiro era nosso vizinho no Beco da Mãe. Supresa total, era um filme nacional, Uma aventura aos 40. Inteligente, bem humorado, sarcástico, bem feito, bem interpretado, sacadas geniais, futurístico, linguagem própria e única, música boa, tudo bom demais.
Um filme brasileiro de 1947, futurístico, com a ação se passando no futuro, 1975.
TV passou a existir do Brasil, como todos sabemos, em 1950. Pois bem. No filme, feito em 1947: um sujeito vê na TV um programa do tipo “Esta é a Sua Vida”  O sujeito é o retratado no programa. E então ele se vira pro apresentador . Esse conta a história oficial de um personagem importante. E o próprio, em carne e osso, diz para o apresentador coisas do tipo: “ô, cara, não foi nada disso. A verdade foi muito mais feia, sórdida, eu dei certo por mero acaso ou descaso. Você está dizendo que eu era um aluno brilhante: não era nada, cara, eu colava nas provas, eu não ia à aula, ia beber chope no Lamas”.
O personagem da história oficial desmistifica a história oficial. Conversando com o apresentador de TV, com o apresentador ouvindo e interagindo: “o senhor vai deixar que eu continue contando a sua história?” 
Tudo é bem humorado, é engraçado. O personagem central conta para o apresentador um caso que envolve telefone com extensão, acontecido logo após o final da Guerra e do fim da ditadura do Getúlio, 1946 . E pergunta para o apresentador, no ‘futuro’ ano de 1975: o senhor tem telefone com extensão? E o apresentador responde, ‘em 1975’: “Doutor, tem 30 anos que eu estou inscrito na Telefônica pra receber um telefone”. Um dos pontos mais importantes da história é que o personagem central, casado, e na década de 40, se apaixona por outra mulher, e tem que decidir entre a outra mulher, que ele ama, e a esposa. Há um momento em que ele cita Goethe, contestando Goethe, dizendo que mais tarde aprendeu que Goethe estava errado: “Nas batalhas do amor, vence aquele que foge”. Num discurso aos alunos, paraninfo da turma, já velhinho, ele diz que tem três recomendações a fazer: “Sejam morais. Trabalhem. E amem, amem, amem”.
O nome do diretor – Silveira Sampaio. No elenco, Silvei ra Sampaio, Flávio Cordeiro, Nilza Soutin, Ana Lúcia. Argumento e roteiro, Silveira Sampaio.
Vibrei com o filme, contei para o meu irmão. Moysés já sabia dessa fita, lembro que ele me informou que o filme foi produzido pelo grupo Os Cineastas,  integrado em sua maioria por médicos, companheiros de Silveira que formou-se em Medicina, em 1935. Ator, autor, diretor, produtor, empresário, show-man e apresentador de TV. Usou o pseudônimo Sam escrevendo no Diário Carioca, em 1934. Ele escrevia suas peças movido por uma sensível e acurada intuição, conhecia bem os autores europeus de sua época, apreciava em especial as peças de Eugène Ionesco, cuja obra As cadeiras, pretendia montar em 1949. Escreveu para o teatro muitas peças.
Nessa época decidiu abandonar a profissão de médico para gerir um teatro próprio: o Teatro de Bolso, na Rua dos Jangadeiros, em Ipanema. Durante sete anos atuou simultaneamente como ator, diretor e produtor de seu próprio teatro. Ali foram encenadas suas peças com sucesso. Houve apenas um fracasso Entre  os de Boa Vontade, mutilado pela censura. Tratava-se de um mundo animal, cujas questões políticas eram analisadas por um papagaio-repórter do Brasil, vivido por Silveira Sampaio. Ele voava pelo palco, num balanço, vestido num fraque de papagaio do alfaiate Almeida Rabelo, enquanto tecia comentários sobre a posição do urso (União Soviética), dos cordeirinhos (os países do leste europeu), da pomba (ONU). Os cortes deixaram o texto incompreensível e na mesma noite de estréia Silveira Sampaio publicou a “morte” da peça nas colunas fúnebres de muitos jornais. 
Os sete anos de teatro esgotaram Silveira Sampaio. Ele trocou o palco pelos estúdios da TV Rio. 
Já em São Paulo Silveira passou também a escrever colunas de comentários políticos, na Folha.

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