Cassiano acreditava ser imortal. Jamais alguém de sua família ou dos amigos iria esquecê-lo após a morte lhe dar o abraço fatal, encerrando o círculo de vida neste planeta. Talento e virtude ele tinha de sobra. Bom pai, amigo, companheiro e prestativo. Adorava resolver problemas alheios.
Em 75 anos de vida nunca o mau humor o tirou do sério. Por mais difícil que fosse a situação, encontrava solução. O ceticismo não encontrava amparo junto dele. Enfim, encarava a vida com alegria. Mesmo debaixo de tempestade, sorria. Sabia que após a forte chuva, o sol brilharia intensamente.
Nem o quarteto de filhos (dois casais) mudava a opinião de que na velhice os netos iriam deixá-lo feliz. Felizmente os quatro cursaram arquitetura e engenharia na USP (Universidade de São Paulo), casaram-se e nenhum conheceu o doce amargo do divórcio ou infelicidade. O pesadelo de todo pai ou mãe.
MPB era o xodó de Cassiano. Tinha coleções de disco de vinil (os famosos bolachões) da maioria dos grandes cantores brasileiros, além de livros, enciclopédias, songbooks, encartes e extensas reportagens nos cadernos especiais de Folha de S.Paulo e Estadão. Os amigos o chamavam de enciclopédia musical ambulante.
Infelizmente no final de ano de 1999 para 2000, um infarto fulminante o levou embora a 3 minutos da entrada do ano-novo. Tristeza geral. O velório no dia 1º de janeiro de 2000 atraiu muitos amigos e parentes, fora os colegas de profissão que ganhou em 40 anos de exercício de arquitetura.
Passados três meses, Clara, a viúva, em comum acordo com filhos e netos, resolveu esvaziar o escritório de Cassiano. Contratou uma empresa especializada em venda de discos de vinil, livros, revistas e jornais. As memórias do falecido encheram dois caminhões VUC. Nada ficou em casa. Apenas algumas fotos.
As roupas acabaram num brechó, inclusive os sapatos de couro italiano, muitos vindo de Roma e fabricados sob encomenda. Os apetrechos de arquiteto também ganharam o rumo da rua. Na entrada de 2001 para 2002, Clara acompanhou queima de fogos ao lado de novo amor. Ela entendeu rapidamente que ninguém é imortal...
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