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Domingo, 09 de Agosto de 2026
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Crônica

Às vezes a delicadeza perde espaço para ignorância

Procurava dizer que aquele alguém era um desfavorecido pelo destino

Redação
Por Redação
Às vezes a delicadeza perde espaço para ignorância
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Existem alunos que tiram o sossego dos professores por causa das perguntas questionadoras. Algumas delas parecem óbvias, porém a maioria das pessoas, talvez por preguiça, não prestam atenção aos detalhes. Porém, com Alfredo César o negócio tomava outro rumo.

Aluno de Direito na famosa Faculdade do Largo São Francisco, no Centro de São Paulo, ele não perdia a chance de tirar a paz de quem assumia o leme de ensinar o dom da palavra na Advocacia. “Professor por que carro seminovo em vez de usar a palavra usado”, provocava sempre nas aulas.

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“Caro Alfredo, as palavras, dependendo da maneira que falamos podem passar a imagem de truculência. A regra é dizer a mesma coisa, mas de outra forma”, respondia os professores que ele escolhia para o seu interrogatório.

Bomba

“Percebo em alguns casos envolvendo o homicídio de prostitutas, que alguns advogados de defesa abrem a conversa falando de “mulher da vida”, cortesã e outros adjetivos”, devolvia a pergunta no formato de bomba.

Hábil pesquisador tinha uma lista de palavras que guardava como pedras preciosas num caderno. Jamais chamava alguém de louco, mas senil, pessoa dotada de pouco bom senso. Diante do rádio, era fã do programa de notícias policiais apresentado por Gil Gomes.

Mesmo sabendo que o autor de determinado crime merecia dormir no frio de uma cela de cadeia. Procurava dizer que aquele alguém era um desfavorecido pelo destino, optando pela subtração do patrimônio do próximo.

Xirófilas

 Quando procurava enaltecer o esforço feminino de suas colegas de classe, que atravessavam a cidade para enfrentar as concorridas aulas de Direito na famosa faculdade do Largo São Francisco, as chamavam de guerreiras xirófilas.

Se pretendia conquistar o coração de alguma colega, utilizava várias figuras de linguagem. Dizia que gostaria de sentir o néctar da doçura quando os seus lábios estivessem unidos ao daquela mulher. Enfim já no terceiro ano de Direito dominava bem a arte da oratória.

Porém existiam pessoas que não gostavam do estilo de Alfredo César, o achava meloso demais. Precisava entender que nenhum advogado vive o dia e a noite somente dentro os tribunais. Terá contato com os mortais, iletrados.

Rosas

Próximo da formatura, no final da década de 1970, se apaixonou por Margarida, sua vizinha de bairro, no Ipiranga. Tinham vidas acadêmicas opostas. Ela estudava engenharia. Sabia que no seu mercado de trabalho encontraria pessoas conhecedoras apenas do básico do português.

Amava Alfredo e tinha sonhos de casar e ter filhos com ele. Num dia dos namorados recebeu um lindo ramalhete de rosas e acompanhado de bilhete, onde Alfredo caprichou os seguintes versos: “gostei, gosto e gostarei do gosto gostoso de gostar de você”.

Durante estágio numa obra, Margarida se encantou com o pedreiro Edgar. Experiente, mas sofrível no falar. “Mulé, tu não quer ser minha quenga. Vou fungar no seu cangote até o fim das nossas vidas”, disse numa tarde, a abraçando. O jeito rude de amar de Edgar acabou vencendo a delicadeza de Alfredo.

FONTE/CRÉDITOS: Aristóteles Ambrósio
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